O Matuto e o Anjo da Morte
Sonhou que estava saindo para trabalhar. O portão da ‘Casa das Pontes’ fechara. O Óscar, a lagartixa residente das ‘Pontes’, revirava os olhos desatinada: “lá vai o imbecil com a Diana Krall no carro aos berros”. Dona Sirlei, a gentil esposa do Matuto, saíra para as tarefas diárias. Pelo retrovisor o Matuto dá de olhos com uma criatura, sentada no banco de trás. Mão apoiada numa foice comprida. Meio indistinta, andrógina, nem alta nem baixa, nem gorda nem magra, nem loura nem negra...
Com o dedo indicador dobrado, a criatura desalmada, soprou a frase: Vim para buscar você!
Aí, o Matuto dá-se conta de que é o Anjo da Morte, ao vivo e a cores. Caramba! Ainda bem que é apenas um sonho. Todavia, a inevitabilidade da coisa persiste. O anjo impiedoso está ali, no carro, e quer levar o Matuto consigo.
- Mas ainda não está na minha hora – reage o Matuto.
- Que falta de originalidade – responde a malvada criatura – todos dizem o mesmo. Se eu ganhasse um Real cada vez que ouvisse isso já estava aposentado.
- É que, eu estou bem de saúde, sinto-me activo e com muito para dar à sociedade. Na verdade, estão à minha espera na escola – pontifica o Matuto.
A criatura abre um sorriso meio trocista meio repulsivo, e condescende.
- Bom, pelo menos não me recebeste com gritarias nem choros dramáticos. Até foste ligeiramente simpático. Se visses as cenas que tenho de aturar...
- Tens razão – o Matuto aproveita a deixa – eu sou um cara legal (é melhor usar a expressão Brasileira porque estando no Brasil o anjo deve ser destas bandas) e de bem com a vida. Sou tranquilo!
- Estou vendo – acena a criatura – estou vendo (pelo uso espontâneo do gerúndio o Matuto percebe que é um anjo da morte radicado no Brasil).
- Me dá uma chance – pede o Matuto.
A maléfica criatura coloca uma mão pensativa no queixo e num arroubo de bondade afirma:
- Tudo bem. Vou dar a você uma chance. Mas você tem de me dar três boas razões para não vir comigo desta vez.
O Matuto empertigou-se todo. Certíssimo. Raciocínio lógico e esgrimir argumentos era com ele. E quando abriu a boca para começar a ladainha de razões para não acompanhar a criatura nefanda... acordou.
O Matuto ficou algum tempo de olhos abertos no escuro.
Curioso — pensa ele — passamos a vida inteira a correr: a pensar na carreira, a sacanear o colega, a lutar por um lugar à janela no restaurante, atordoados com vãs conquistas.
Depois, quando a morte pede apenas três simples razões para continuarmos por aqui… a mente fica em branco.
No muro do jardim, o Óscar, a lagartixa residente das ‘Pontes’, ergueu a cabecita com a tranquilidade filosófica dos répteis domésticos e murmurou:
— Se o anjo voltar… diz-lhe que ainda tens muito chá para beber, muitos livros para ler e umas histórias para escrever.
