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O Matuto e a Fadiga Sensorial

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O Matuto sempre foi ligeiramente surdo. A primeira coisa que Dona Sirlei, a gentil esposa do Matuto, faz quando entra no carro do casal, é baixar o volume do som. Aí, o Matuto não ouve nada. Segue uma periclitante negociação. Como o Matuto é um ser morigerado, adivinha-se facilmente o desfecho deste fait-diver doméstico.

Na ‘Casa das Pontes’ o tema foi abordado de forma animada. A Belinha, a visita conservadora das ‘Pontes’, foi logo debitando irritações com cheiros. “Detesto o cheiro de solteironas com naftalina e sem homem” – disse, indignada – “não tenho pachorra! Depois há certos queijos que me dão náusea. O cheiro de camarão é horrível! E sovaco de escuteiro, não tolero”.

O Marcello, a visita reaccionária das ‘Pontes’, e ultimamente o maior consumidor de álcoois brancos da casa, ri com gosto: “que tolice!” Mas acrescentou: “nesse negócio dos sentidos eu ando meio desatinado de ver tanto a cor verde. Deve ser do Palmeiras estar a ganhar pra caramba. Me dá uma raiva!”

O Sr, Rocha, a visita letrada das ‘Pontes’, aventa: “Isso, de acordo com o parlapatão de Viena, o tal de Freud, tem a ver com o teu subconsciente”. “O meu quê?” – reage o Marcello – enquanto derruba mais uma aguardente de cana, para se recompor da surpresa. “Deixa quieto!” Por vezes o Sr. Rocha não tem paciência para lapuzes, labregos urbanos.

Nesse momento o Matuto confidencia que a sua fadiga sensorial atingiu o tacto. Na opinião do Matuto o tacto é um sentido totalmente democrático, porque habita o corpo todo. “Dantes um toque ligeiro da palma da mão” – revela o Matuto – “ou uma carícia no pescoço, era suficiente para chegar a Marte numa vertigem. Hoje os receptores embotaram. Os dedos retraem-se em artroses”.

Aqui o engenho do Sr. Rocha é aguçado: “Rousseau, no seu livro Emílio defende que a criança deve aprender primeiro com o corpo e pelos sentidos, antes da abstração intelectual. O tacto, juntamente com visão, audição, olfato e paladar, é parte dessa educação infantil. Mas ele diz que ao contrário da visão ou da audição, que podem enganar, o tacto é mais seguro porque exige contacto direto. A criança aprende o mundo tocando nas coisas. Nas formas, texturas”.

O Matuto concorda. Tocqueville partia da força dessa metáfora corporal para dar peso à noção de “tacto” como virtude política. Ele usava o termo “tacto” para falar da capacidade de perceber e julgar com sensibilidade, especialmente no campo político e social. Para ele, ter “tacto” era uma virtude prática: uma espécie de “instinto refinado” que permitia compreender nuances da vida democrática sem se perder em abstrações. Política sem politiquices – pondera o Matuto.

E ficou a pensar que talvez o problema não estivesse nos sentidos… mas no excesso deles. Demasiado ruído, demasiado cheiro a mundo.

No dia seguinte, o Matuto passou pelo mercado. Daqueles antigos, com peixe a pingar nos balcões e arrufos entre mercadores. Uma peixeira, de mãos firmes e olhar sem metáforas, agarrou-lhe no braço para lhe impingir umas douradas:

— Ó chefe, isto é que é peixe! Toque aqui!

O Matuto, meio atarantado, obedeceu. E ali ficou, com os dedos pousados na pele fria do peixe, a ouvir o pregão, o arrastar dos corpos, o cheiro salgado a invadir-lhe o nariz - tudo ao mesmo tempo, sem filtro, sem teoria.

Talvez Rousseau tivesse razão. E Tocqueville também. Mas a peixeira resolveu o assunto em menos dum fósforo - sem citar ninguém. Nessa noite, já na ‘Casa das Pontes’, o Óscar, a lagartixa residente, abriu um olho preguiçoso e comentou:

- Tanto filósofo e bastou uma peixeira para resolver a coisa.

Sim - pensou o Matuto – mas Hume insistia na validade das percepções...

- Safa!!! Isso já não é fadiga sensorial – replica o Óscar – é falta de pôr a mão na massa!


© SOL