TPC: quando a escola entra pela casa adentro
Depois de um longo dia de aulas e de trabalho, em que pequenos e graúdos chegam exaustos a casa, expectantes pelo merecido descanso, o que dizer das mochilas que entram pela porta carregadas de TPC para o dia seguinte?
Como reagir quando, já cansados, com pouco tempo para preparar o jantar, realizar as tarefas pessoais, da casa e ainda gerir o tempo em família, nos deparamos com o desafio de convencer crianças e jovens igualmente fatigados a sentarem-se, uma vez mais, à secretária, a trabalhar e a puxar por uma cabeça que já não consegue dar mais? Por que temos de comprar essa guerra diariamente? Ou, para nos pouparmos ao campo de batalha, enviar as pobres crianças para centros de estudo de onde saem muitas vezes já sem ver a luz do dia?
E quando os filhos não conseguem fazer os TPC autonomamente, que muitas vezes parecem impossíveis e intermináveis, e têm de ser os pais a inventar tempo, entre fazer o jantar, dar banhos e servir de “uber”, para dar aulas extra? Será que ambos não têm direito a ser donos das suas tardes e a aproveitarem-nas livremente? As muitas horas diárias de escola não são suficientes para cumprirem os objetivos? E as crianças que têm atividades a seguir à escola e que chegam já perto do jantar? Devem deitar-se mais tarde só para cumprirem a obrigação dos TPC mesmo que não estejam a aprender? Só para não terem falta no dia seguinte e poderem ir para a cama de consciência tranquila?
Fala-se tanto de saúde mental e de bem-estar, da importância de valorizar e viver o tempo em família, do encontro, da brincadeira, e não nos apercebemos de que o peso da escola, pela mão dos TPC, boicota em grande parte a disponibilidade que podíamos ter para o que é realmente importante quando nos reunimos em casa ao final do dia. Na infância, o tempo livre não é um prémio depois das obrigações, é um espaço aberto, sem regras, objetivos ou imposições, essencial para dar asas à imaginação e para elaborar as experiências vividas ao longo do dia. Porque é muitas vezes, nesse tempo aparentemente “improdutivo”, que as crianças organizam internamente aquilo que aprenderam e sentiram.
Da mesma forma que os pais não devem interferir no funcionamento da escola, a escola também não deveria poder ocupar o já limitadíssimo tempo de casa, de família, de encontro e de descanso. O tempo doméstico tem uma função própria: é o lugar do vínculo, da conversa sem pressa, da brincadeira espontânea e da possibilidade de simplesmente nos permitirmos descansar e não fazer nada, sem sentir que estamos em incumprimento.
Talvez valha a pena perguntar se todos os TPC são realmente necessários e se não estaremos, sem dar por isso, a prolongar a escola pelas casas das famílias adentro. A contribuir para mais um momento de ansiedade e conflito em vez de uma merecida paz e encontro, depois de um dia que começou demasiado cedo, demasiado depressa e que foi demasiado exigente. Num tempo em que encontramos pequenos e graúdos cada vez mais cansados e ansiosos, com a sensação de que não conseguem corresponder às expectativas, talvez pudéssemos também refletir sobre o valor das tardes livres e do encontro da família, não como um tempo sem valor, mas como um espaço fundamental para o equilíbrio de todos.
