O olhar autêntico das crianças
Um dia destes, quando trazia o meu filho e um amigo do treino, chamou-me a atenção a conversa que chegava alegremente do banco de trás: - Este ano faço anos num domingo. Não é um dia de semana!
- Não é um dia de semana como?
- Pronto, é um dia de semana, mas não é um dia útil.
- Como assim não é um dia útil? O Domingo não é um dia útil para ti? Não é útil poder ficar em casa e não ir à escola?
Ouvir uma conversa entre crianças é um dos programas mais ricos e deliciosos a que podemos assistir. A forma autêntica, ingénua e, ao mesmo tempo, determinada com que dizem e explicam as coisas, como descrevem e entendem o mundo, é digna de um Nobel.
As crianças têm o dom de conseguir ver a realidade como a sentem e como já não nos lembramos dela. Sem chavões, sem preconceitos, com uma clareza genuína. É na relação com os outros, no que vamos aprendendo e desaprendendo com eles, que deixamos de ser fiéis ao que vemos e sentimos e ao entendimento que fazemos do que nos rodeia. É sob o seu olhar que deixamos de estar em contacto direto com as nossas convicções. Que deixamos de ver com clareza a nossa verdade que, muitas vezes e sem nos darmos conta, começa a ver-se enredada entre outros pontos de vista, expectativas, medos e julgamentos.
As considerações que fazemos deixam de ser só nossas para se tornarem num emaranhado entre aquilo que realmente pensamos, o que achamos que os outros pensam, e o que julgamos que esperam que devemos pensar. O que no fim resulta numa espécie de compromisso entre nós e os outros. O resultado só pode ser, inevitavelmente, distorcido, menos pessoal e menos autêntico. Como as casinhas que quase todas as crianças desenham, mostrando apenas a fachada, com duas janelas e uma porta, quando a maioria vive a casa mais por dentro do que por fora e mora em prédios altos com um incontável número de janelas.
Neste contexto, a história do Rei vai nu é muito certeira e reveladora. Denuncia com uma enorme clareza o óbvio, desconstrói o ridículo que o grupo não tem coragem de apontar e que só o olhar ingénuo e puro de uma criança consegue ver e acusar.
Inevitavelmente, a sociedade vai-nos colocando palas nos olhos, indicando o caminho mais correto, mais seguro, mais aceitável ou conveniente. Sobretudo desde a entrada na escola.
Não é fácil mantermo-nos fiéis a nós próprios, à nossa forma de sentir e às nossas convicções quando viver em sociedade exige adaptação. Embora esta seja inevitável e necessária para aprendermos, convivermos e crescermos, muitas vezes aproxima-se de uma certa anulação, levando à perda de autenticidade e espontaneidade.
Com o passar do tempo tem havido maior abertura e compreensão da diversidade e da sua importância, no entanto, parece haver também uma dificuldade crescente em respeitar verdadeiramente cada percurso individual.
Teremos de ser nós a decidir o que queremos recuperar e o que podemos deixar cair das várias camadas que se foram depositando sobre nós. Já não conseguimos regressar à inocência da infância, mas podemos procurar uma visão mais autêntica do mundo, onde o olhar do outro possa ser enriquecedor, sem limitar a nossa própria opinião. Talvez seja nesse reencontro com nós próprios e com o que é verdadeiramente nosso que podemos deixar florescer a nossa singularidade.
