Entre a culpa e o amor
João foi um filho muito desejado. Tão ansiado que, mesmo na sua imperfeição, era perfeito. Não nasceu apenas como filho, mas também como esperança. Como resposta a vazios antigos desconhecidos, a silêncios que existiam por dentro, a sonhos irrealizados.
Sem que ninguém o soubesse ou tivesse decidido, o João trouxe consigo uma missão: a de preencher, consolar e dar sentido. Não com gestos ou ações, mas com a sua simples existência.
Foram uns primeiros anos perfeitos, de ligação e proximidade intensa e necessária com a mãe, como se ambos se fundissem num só. O problema foi quando, ao crescer, não sentiu espaço para que se fosse distanciando. Quando não lhe foi permitido que arriscasse.
Para algumas mães não é fácil aliviar a ligação, deixar o fio estender-se. Não por egoísmo ou desejo de controlo. Mas porque a separação desperta medos profundos, como o de deixar de ser necessária, medo do vazio ou de ficar sozinha.
E assim, quase sem se dar conta, a proteção prolonga-se. O cuidado torna-se vigilância. A presença faz-se indispensável. A mãe continua a fechar quando já seria tempo de confiar e deixar ir.
O João cresce, mas cada passo que tenta dar em direção à autonomia vem acompanhado de culpa e de um mal-estar que não sabe identificar. Como se não tivesse direito a construir a sua própria vida e como se esse passo representasse abandonar ou atacar quem mais ama, quem se dedicou tanto e a quem sente que deve tudo. Como se vir a amar outra pessoa significasse trair a primeira ligação.
Não é que não queira sair. Mas sair é muito difícil e não só dói, como imagina que também possa doer a quem o criou extremosamente. Seria muito ingrato. E estes sentimentos e este conflito são tão difíceis de gerir que o melhor é não arriscar.
Ouvimos falar de mães ausentes e indisponíveis, daquelas que falham pela falta. Mas os excessos, embora possam parecer mais subtis, aprisionam e podem fazer adoecer. Há asas demasiado longas ou pesadas que não deixam ver para fora, que fazem sombra e em que o cuidado é tão constante que não deixam experimentar o risco necessário para aprender a voar.
Sem que ninguém se aperceba, muitas vezes o amor transforma-se, sem intenção, numa ligação difícil de aliviar.
O João desta história é uma metáfora de uma forma de relação e de vida, mas há muitos Joões (e Marias) reais pelo mundo. Filhos que vivem divididos entre a necessidade e o desejo de partir e o medo de magoar. Que confundem autonomia com lealdade. Que se sentem sempre em falta e que só mais tarde (ou nunca) descobrem que separar-se não significa deixar de amar. Da mesma forma, talvez haja muitas mães que, um dia, percebem que soltar não é perder. É confiar e criar um ser livre, seguro e capaz. Que se pode manter próximo não por culpa ou receio, mas por amor.
