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Um português em Duíno

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15.02.2026

«Se eu gritar, quem poderá ouvir-me, nas hierarquias dos Anjos?» Os primeiros versos de As Elegias de Duíno exercem uma atracção imediata e Rilke leva-nos numa viagem mística irresistível, em que passa pela vida e a morte, o amor e a tristeza, a condição humana e a perfeição simbólica dos anjos. É um livro que fica connosco e a que se regressa, à medida da idade, como um local que conhecemos. Por isso, sempre quis ir ao castelo onde um anjo suspirou a Rilke o mote destas elegias e que o poeta só terminaria uma década depois, na Suíça, pouco antes de morrer.

A viagem de carro de Veneza a Duíno, pequena localidade a noroeste de Trieste, demora cerca de hora e meia, o que permitiu chegar ao castelo pouco depois da hora de abertura. Nessa manhã de Dezembro do ano passado, o céu estava limpo e o Sol aquecia a encosta e avivava o azul das águas do Adriático. Na recepção, comprei imediatamente alguns livros, postais e, naturalmente, os bilhetes. Por entre visitantes italianos e eslovenos já na terceira idade, onde apenas se distinguia um jovem e ruidoso casal norte-americano com as suas crianças, destacávamo-nos e a funcionária perguntou, curiosa, de onde vínhamos. «De Portugal», respondi, justificando de seguida: «Gosto muito do Rilke.» A reacção dela foi a de uma conclusão óbvia, mas instantaneamente interrompi-lhe tal certeza, dizendo: «Aqui também esteve o último Rei de Portugal.» Os olhos dela voltaram a fitar-me com surpresa e, sincera, admitiu: «Isso não sabia…»

Enquanto subia até à entrada do castelo, recordava esse pormenor tão desconhecido, mesmo no nosso país. Felizmente, a Princesa Marie von Thurn und Taxis deixou dele registo nas suas Memórias sobre Rainer Maria Rilke, publicadas em 1933, escrevendo: «Depois, ficámos novamente alguns dias em Duíno, durante os quais recebemos convidados que animaram e divertiram o nosso poeta. Tratava-se do jovem Manuel, Rei de Portugal, com a sua tia, a boa e querida Arquiduquesa Maria Josefa, que durante o Outono residia na vizinha Miramar: como sabíamos que o Rei gostava muito de música, chamámos os nossos amigos do Quarteto Triestino e apreciámos uma bela tarde dedicada a Mozart e Beethoven. Na grande sala dos antepassados, onde os Patriarcas de Aquileia, com as suas vestes púrpuras, e os Torriani, senhores de Milão no século XII, a cavalo com as suas armaduras, nos observavam das paredes, o jovem rei no exílio ouvia em silêncio a música. Naquele dia, ele e a sua tia, acompanhada pela dama de companhia, eram os únicos convidados.»

A Princesa havia convidado Rainer Maria Rilke para aqui vir pela primeira vez em 1909 e o poeta ficou fascinado. Foi o início de uma amizade estreita, de mútuo respeito e admiração, em que Marie von Thurn und Taxis, além de sua anfitriã, se tornou mecenas de Rilke e uma das maiores impulsionadoras da sua obra. Como reconhecimento, note-se que, mais que dedicar-lhe a obra que porta o nome do castelo da Princesa, Rilke declarou que As Elegias de Duíno eram propriedade desta.

É curioso que as duas primeiras elegias tenham sido escritas no início de 1912 e que, em Março do mesmo ano, D. Manuel II tenha visitado Sigmaringen, onde conheceu a Princesa Augusta Vitória, com quem casaria um ano depois. Em Setembro, Marie von Thurn und Taxis levou Rilke a rever a arena de Verona iluminada pela Lua cheia e, pouco depois, dar-se-ia o encontro entre o poeta e o nosso desaventurado Rei.

No entanto, na minha visita, em que me deslumbrei com os quartos bem preservados e a extraordinária biblioteca, o local mais «musical» de que guardo memória não foi a sala dos antepassados, onde Rilke e D. Manuel II ouviram Mozart e Beethoven. Foi antes aquela onde está o pianoforte em que Liszt tocou e em frente à qual está o terraço de que o poeta tanto gostava, com uma vista magnífica para as ruínas do antigo castelo e as falésias brancas que contrastam com o azul do Adriático.

O Castelo de Duíno era um daqueles «lugares encantados» a que sempre quis ir, na perseguição que há muito faço dos meus autores. Aqui estiveram grandes nomes da aristocracia e da cultura europeias, mas foi sempre Rilke que me atraiu. Inesperadamente, o genius loci fez surgir um português para me acompanhar.


© SOL