Meu caro Céline…
Os meus amigos franceses gostam muito mais de Lobo Antunes do que eu, mas há anos que deixei de tentar explicar. Alguns impressionavam-se por ser francófono e até francófilo, em especial os parisienses, outros gostavam da sua escrita e perguntavam-me sobre a qualidade das traduções francesas.
O meu parco conhecimento da sua obra impedia-me de acompanhar tais discussões. Foi um estilo que nunca me atraiu e o que verdadeiramente gostei em Os Cus de Judas, por exemplo, foi a minha Lisboa enquanto personagem, uma cidade que me recordo da infância e que desaparece de dia para dia. Ainda que este sentimento nostálgico possa ser partilhado, a tradução de tal título é impossível…
Assim, optei sempre por contar a curiosa história de quando António Lobo Antunes, ainda adolescente, escreveu a Louis-Ferdinand Céline e este lhe respondeu. O escritor português contou-a várias vezes, mas reproduzo o que disse na entrevista que deu ao Expresso, no início de 2017: «Aprendi a escrever muito cedo. Foi a minha mãe que nos ensinou a ler a todos. O meu pai começou a dar-me livros para ler, e eu ia lendo. Aos 13 ou 14 anos, ele tinha uma segunda edição de Mort à Crédit, do Céline, e eu fiquei deslumbrado. Pensei: “O que se pode fazer com as palavras!” Escrevi uma carta ao Céline a pedir-lhe um retrato, como se ele fosse um actor de cinema. Ele respondeu-me e andei anos com o envelope no bolso, onde ele tinha escrito o meu nome. Foi uma alegria tão grande! Ele a dizer: “Queres ser escritor? Isso não é boa ideia, estuda, namora. Porque se fores escritor não podes fazer mais nada.” Nunca mais me esqueço disto: eu ter escrito uma carta ao Céline e ele ter-me respondido...»
A propósito, sempre me recordei do jovem Franz Xaver Kappus, que queria ser poeta, quando escreveu a Rainer Maria Rilke a pedir conselhos literários, mas neste caso a resposta foi diferente…
Lobo Antunes ignorou o conselho de Céline e tornou-se escritor, mas a admiração continuou. Noutra entrevista, revelou o grande desgosto que teve ao perder aquela «carta tão terna», mas continuou a ler os livros dele e afirmou, sem rodeios, que se trata de «um grande escritor».
Aqui, além de reconhecer o inegável talento de Céline, opunha-se igualmente às figuras do meio literário nacional que atacavam o «escritor maldito», o seu estilo inovador e àquelas que seleccionavam cuidadosamente as partes «aceitáveis» da sua obra.
Em 2010, por ocasião da republicação da Viagem ao fim da Noite, o Ípsilon dedicou duas páginas ao autor, que incluíam a história de quando Lobo Antunes lhe escreveu. Mais uma vez, o escritor português foi tão implacável como certeiro sobre a escrita de Céline: «Aquilo é tudo uma novidade visceral. Mas depois o que é que o Eduardo [Prado Coelho] dizia? Que a sua prosa era viscosa, que aquilo era uma coisa horrorosa, nojenta quase comparada a fezes ou a tripas. Não é nada disso. Aqueles livros, toda a obra dele, mesmo os grandes delírios finais, em que ele já estava diminuído, são epopeias líricas.»
