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Aviso por Causa do Direito

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Conta-se, no Antigo Testamento, que Siquém, filho do chefe dos Heveus, violou Diná, filha de Jacó, o qual veio a adotar mais tarde o nome de Israel. A fim de se desculparem da ofensa e comprar a paz, os Heveus aceitaram circuncidar-se e converter-se ao judaísmo. Enquanto estavam enfraquecidos e com febre na sequência da circuncisão, os irmãos de Diná, Simeão e Levi, entraram na cidade dos Heveus e mataram todos os homens.

Sem abandonar os costumes ancestrais, mas muito pior do que o rei dos Heveus, em 7 de outubro de 2023 o Hamas não se limitou à violação de uma pessoa, mas mostrou sem ambiguidade o que pensa e o que pretende dos israelitas, sem discriminação de sexos, idades, cores ou condição.

Para Israel, não era possível tolerar o intolerável. Os israelitas aperceberam-se com clareza meridiana do erro da tentativa de apaziguamento, mesmo que relativo, dos seus inimigos mortais. A partir daí, os acontecimentos têm seguido uma lógica imperturbável.

O Hamas foi desarmado, o regime sírio caiu, o Hezbollah humilhado e profundamente enfraquecido.

Ninguém desconhecia que, após a destruição dos postos avançados no Líbano e em Gaza, a guerra chegaria inevitavelmente a Teerão. Por isso, após décadas de guerra por procuração, perante o dizimar dos seus peões e um ataque às suas instalações consulares no contexto dessas operações, em abril de 2024 a República Islâmica optou pela guerra direta contra Israel – guerra que prossegue, agora no seu terceiro episódio.

Da perspetiva da República Islâmica e dos seus inúmeros defensores no Ocidente e no Médio Oriente, a questão de fundo é o ‘sionismo’, termo que codifica a existência do estado de Israel. O chamado ‘antissionismo’ significa somente a defesa da ilegitimidade da existência do estado de Israel, como se fizesse sentido, por quaisquer motivos, defender a destruição de um estado de direito com dez milhões de habitantes, quase oitenta anos de história, basicamente funcional, democrático e próspero para o substituir por mais uma ditadura entre tantas outras que os povos já têm de sofrer em redor do mundo.

Para Israel, portanto, o direito, a justificação, a ocasião e a prudência da guerra contra o regime iraniano são incontestáveis.

Entretanto, com o massacre da liderança iraniana Israel admitiu possivelmente a queda do regime no Irão – além do efeito de dissuasão e porventura um inconfessável sabor de vingança.

Mas como mostra a experiência de Gaza, só a destruição extensiva e ocupação do território, com incontáveis vítimas inocentes, é capaz de desarticular um regime cujo modelo constitucional é o fanatismo religioso identitário, o culto do martírio e ódio sem limites ao inimigo, que assassina massivamente os adversários internos, dedica os seus principais recursos ao armamento e não hesita em expor sistematicamente ao massacre creches, escolas e hospitais.

Dada a desproporção de território e população, o que se passou em Gaza, que levou à destruição do Hamas, nunca poderia estar em questão no Irão. A conclusão mais provável é que a guerra continuará com próximos episódios, sem fim à vista até a queda do regime iraniano por fatores ainda imprevisíveis.

Immanuel Kant propôs, já no Séc. XVIII, a Paz Perpétua através do direito internacional – o que requer porém, como bem observou o filósofo, que todos os estados envolvidos tenham regimes decentes. Já o grande Friedrich Hegel, mais realista, defendeu que na ausência de um direito internacional fiável, o tribunal para a geopolítica é apenas a história. Entre os dois, o futuro dirá quem tem razão mas, para já, Hegel leva infelizmente vantagem.


© SOL