menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Reforma digital do Estado: quando a narrativa não chega aos cidadãos

31 84
16.02.2026

A reforma do Estado em curso tem vindo a ser apresentada pelo Governo como um novo ciclo de modernização administrativa, assente na transição digital e na inteligência artificial. Estratégias, agendas, pactos, planos de ação, novas entidades e reformas institucionais surgem integradas num discurso político que promete eficiência, produtividade e liderança digital europeia. Contudo, pouco se discute o modo como tudo isto está a ser comunicado aos cidadãos, e essa dimensão levanta questões relevantes sobre clareza, governação democrática e confiança pública.

A narrativa oficial é coerente e ambiciosa. Como referimos no nosso artigo: “Da ANIA à NIS2: ética em alta na retórica, em baixa na avaliação”, publicado pelo Sol, em 03.02.2026, as novas estratégias, pactos e planos, bem como as entidades criadas no âmbito da reforma digital do Estado, surgem como sinal de racionalização, coordenação e reforço da capacidade pública. Contudo, a mensagem não se apresenta clara para quem está fora dos círculos especializados; para o cidadão comum, o Estado digital tende a assemelhar-se a uma verdadeira “caixa-preta” institucional.

Do ponto de vista comunicacional, a mensagem é clara: a inteligência artificial surge como uma oportunidade histórica para modernizar a Administração Pública, aumentar a produtividade e posicionar Portugal entre os líderes digitais até 2030. O discurso político recorre a conceitos dominantes no contexto europeu: “inteligência artificial centrada no ser humano”, “confiança”, “responsabilidade”, “abordagem baseada no risco”. Sublinha ainda o alinhamento com o Regulamento Europeu da Inteligência Artificial (AI Act). O risco não está na ambição estratégica do Governo, mas na forma como ela é comunicada: densa, tecnocrática e pouco escrutinável.

Este alinhamento com o quadro europeu é, sem dúvida, um dos pontos fortes da comunicação governamental. Ao contrário........

© SOL