O fascismo e os fascismos
1. Comprei recentemente um livro de Zeev Sternhell (e de outros historiadores) intitulado, em francês, Naissance de l’idéologie fasciste. Já tinha lido, em português, outro livro seu: Nem direita nem esquerda - A ideologia fascista em França.
Este último levou-me a olhar com interesse para a forma como os fascismos seduziram, nos anos trinta e quarenta do século passado, muita gente e, no que nos diz respeito, alguma da juventude da então frágil classe média portuguesa.
A tese desenvolvida em tais livros resume-se assim: o fascismo pretendeu apresentar-se como um movimento antissistema, que visava ultrapassar os antagonismos de classe, muito acesos e evidentes nas democracias liberais.
Defendia, ainda, estar acima da divisão tradicional entre direita e esquerda e desejava, em nome da unidade da nação, constituir uma ponte entre os legítimos interesses de uns e de outros.
Segundo Zeev Sternhell, o fascismo não nasceu, como outros defendem, apenas como consequência da Grande Guerra.
Muitas das ideias que deram corpo à sua ideologia já estavam presentes no pensamento de alguns intelectuais e ativistas políticos franceses do final do século XIX.
O fascismo opunha-se, aparentemente com igual ferocidade, tanto à prática política das democracias liberais como ao débil reformismo do pensamento socialista e, mais tarde, ao movimento comunista.
Várias correntes de pensamento e diferentes e contraditórios movimentos políticos, uns ultraconservadores e nacionalistas, e outros com origem em grupos de sindicalistas autónomos e vanguardistas conjugaram-se, assim, para formar o que veio a ser o volúvel discurso teórico e a sempre agitada e violenta ação antidemocrática do primeiro fascismo italiano.
2. Ler e estudar as obras citadas ajuda, pois, a compreender melhor os ‘ziguezagues’ das referências e posições políticas dos defensores da nova direita radical portuguesa.
Tais variações não são originais, nem apenas fruto de um oportunismo tático: revelam, sim, contradições reais, visíveis nos discursos das suas lideranças nacionais e igualmente nas histriónicas manifestações públicas dos que a apoiam ou nela votam.
Apesar do seu recente e expressivo resultado eleitoral, não há, contudo, nos seus programas e discursos uma unidade coerente de razões ou um projeto político, social e económico congruente e inovador.
Podemos, certamente, situar o descontentamento de muitos jovens que votam na direita radical na travagem brusca das suas expectativas de vida, resultante da aplicação insensível de políticas salariais e de emprego neoliberais.
Podemos acrescentar-lhe ainda, como motivação adicional, a evidente deterioração de serviços públicos essenciais, como a saúde e a educação.
Podemos invocar igualmente o desânimo causado pelo difícil acesso à habitação e pela consequente dificuldade em estabelecer relações familiares estáveis.
Podemos, por fim, evidenciar a desmoralização social gerada pelo conhecimento constante de casos de corrupção, compadrio e todo o tipo de abusos no exercício do poder político e administrativo.
3. Não menos importante para o descrédito da democracia é, igualmente, a atitude condescendente de alguns, que se consideram democratas, com os que dela apenas se aproveitam para benefício próprio.
Derrotada nas urnas a direita radical, é, pois, fundamental, agora, abrir as janelas e deixar que o vento fresco da democracia constitucional que se faz de novo sentir aparte de vez tais aproveitadores.
A credibilidade e perenidade do nosso regime democrático e constitucional depende disso.
