'Muera la inteligencia! ¡Viva la muerte!'
Os dias que vivemos são perigosos. Não se trata de uma perceção: o perigo, mesmo quando indefinido, mostra-se, realmente, sem disfarces nem preocupações de se ocultar.
Vemo-lo exibir-se, triunfante, em cada discurso do presidente da maior potência mundial.
Deixa-se fotografar ou filmar através das câmaras que captam, frias, o sofrimento irreprimível e devastador das crianças, das mulheres e dos homens que percorrem, desesperados, as ruínas do que foram as suas casas, bombardeadas impunemente pelos que o podem fazer com a segurança de não sofrerem retaliações à altura do mal que fizeram.
As instituições internacionais que, na sequência da II Grande Guerra, foram instituídas para evitar que o pesadelo da guerra e as suas sequelas acontecessem e alastrassem de novo a todo o mundo revelam-se, hoje, impotentes, sem que, em rigor, entendamos quando e por que razão isso aconteceu.
O que hoje vemos nos ecrãs das televisões, como a revelação da realidade, é mais perturbador do que a ficção dos filmes que, há duas décadas, nos alertavam para o horror de um mundo devastado pela violência, imposta por senhores da guerra que não conheciam já a moral ou lei alguma, que não as da sua própria vontade.
O ar desvairado que, esforçadamente, os atores que os interpretavam se excediam por exibir, parece o retrato de uma santa inocência quando comparado com os esgares alucinados dos que, hoje, nos falam da paz enquanto, realmente, impõem a guerra.
A realidade copia, assim, a ficção, mas ultrapassa-a em horror e desumanização.
Os sábios, os filósofos, os escritores, os poetas, os pintores, os escultores, os músicos que apontavam ao mundo o caminho do bem e da solidariedade humana ou não existem já ou deixaram de ser ouvidos.
Foram substituídos por influencers, opinion makers, especialistas em relações internacionais, historiadores revisionistas e políticos de pacotilha, cuja única qualidade que lhes podemos apreciar é a voz cava e grave com que dizem banalidades que, afirmadas com voz de cana rachada, não convenceriam ninguém, pois a sua seriedade resulta apenas, como nos filmes dos anos quarenta, da sua suposta gravitas.
As mensagens curtas e incisivas que nos invadem os telemóveis, os computadores, as televisões nada dizem de relevante e não têm, igualmente, mais importância do que o pequeno número de palavras que o emissário conseguiu articular e que, em geral, os destinatários pouca paciência têm para ler ou capacidade de entender.
Os happenings artísticos, longe de darem força para contrariar essa realidade triste e despojada de esperança, apenas pretendem, generosamente, atordoar e permitir que aqueles que neles participam possam, por momentos, ignorar a feiura do que veem e as atrocidades que os rodeiam.
A guerra passa nos ecrãs das televisões, à hora de jantar, como se fosse uma caricatura dela mesma num programa de entretenimento.
Apenas acontece, agora, que os protagonistas são os que, em direto, vemos morrer ou chorar - desesperados - a morte dos pais e o abandono a que, de repente, foram condenados.
O circo romano e a aberrante sorte dos gladiadores parecem hoje, em comparação, apenas um programa infantil de duvidoso gosto.
O iracundo grito «! Muera la inteligencia! ¡Viva la muerte!», que Millán-Astray, um já demente general franquista, gritou perante Unamuno, parece, em comparação com o que hoje corriqueiramente se ouve, quase um poema.
