A cidade e o direito ao silêncio
Há uma coisa que parece ter sido esquecida no centro de Lisboa: as cidades também precisam de silêncio. Numa época em que o espaço público é cada vez mais disputado por turistas, residentes, comerciantes, eventos, marcas e promotores, parece ter-se instalado a ideia de que uma cidade viva é necessariamente uma cidade ruidosa. Não é. Uma cidade pode ser dinâmica, cosmopolita e aberta ao mundo sem transformar cada praça, jardim ou avenida num palco permanente.
Lisboa vive hoje uma espécie de vertigem dos eventos. Há sempre qualquer coisa a acontecer, em qualquer lugar, a qualquer hora. Feiras, concertos, festivais, exposições, promoções comerciais, instalações temporárias e iniciativas de todo o género ocupam sucessivamente os espaços mais nobres da cidade, muitas vezes sem que se perceba sequer qual é a necessidade de ali estarem. O problema não é existir programação cultural ou animação urbana. O problema é a sua acumulação, a sua frequência e a crescente incapacidade de deixar simplesmente o espaço público respirar.
O Rossio é talvez um dos melhores exemplos desta transformação. A praça, que deveria ser um dos grandes espaços de contemplação e encontro de Lisboa, passa grande parte do tempo ocupada por estruturas temporárias, feirinhas e outros equipamentos que alteram constantemente a sua utilização. As próprias fontes, que deveriam contribuir para a beleza e para a identidade daquele espaço, estão a maior parte do tempo desligadas. O mesmo acontece no Miradouro de São Pedro de Alcântara, na Avenida da Liberdade e noutros lugares que deveriam ser fruídos pelos lisboetas e por quem visita a cidade sem que seja necessário acrescentar-lhes permanentemente qualquer coisa.
A Praça do Comércio é outro caso evidente. Raramente passa muito tempo sem que a placa central esteja ocupada por palcos, exposições, estruturas promocionais ou iniciativas de marcas. Parece existir uma dificuldade em aceitar........
