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Entre diques e ilusões, quando o homem pensa dominar o rio

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13.02.2026

Há uma tentação antiga na história humana, a ideia de que conseguimos dominar a natureza como quem redesenha um mapa. Endireitamos rios, levantamos diques, desviamos cursos de água e acreditamos que, com tecnologia suficiente, tudo ficará finalmente sob controlo. O Mondego é talvez um dos exemplos mais claros dessa ambição em Portugal. Regularizámos o seu leito, disciplinámos as margens, transformámos várzeas em campos produtivos e cidades mais seguras. Durante décadas, o sistema pareceu funcionar, e em muitos aspetos funcionou mesmo.

Mas há uma diferença entre gerir e dominar. A engenharia hidráulica moderna nunca afirmou eliminar o risco, apenas redistribuí-lo. Estudos na área da hidrologia fluvial mostram que a canalização rígida dos rios aumenta a eficiência do escoamento, mas também reduz a capacidade natural de dissipar energia das cheias, criando maior dependência da manutenção e da gestão ativa. Investigadores de referência na geomorfologia fluvial europeia demonstraram que a retificação de cursos de água altera o equilíbrio sedimentar e acelera processos de assoreamento, obrigando a intervenções contínuas e planeadas.

Talvez o problema não seja termos intervindo, mas termos acreditado que a obra terminava quando o betão secava. Não termina. Nunca terminou.

Durante anos fomos convencidos de que bastava construir mais alto e mais forte. Contudo, relatórios da Agência Europeia do Ambiente têm alertado que a ocupação de leitos de cheia e a impermeabilização excessiva dos solos aumentam o risco de inundações extremas, mesmo em sistemas regulados. A natureza não se vinga, mas reage. E reage sempre segundo as suas próprias leis.

É aqui que entram os Planos Diretores Municipais. Durante demasiado tempo fomos permissivos na ocupação do território. Construímos onde a água sempre quis passar. A ciência do ordenamento do território é clara ao afirmar que as zonas inundáveis não são apenas um problema técnico, são um limite físico. Menos permissividade nos PDM não é um capricho ideológico, é uma necessidade baseada em evidência científica e em décadas de eventos extremos por toda a Europa.

Outro ponto que raramente se discute com frontalidade é a manutenção. A regularização do Baixo Mondego criou um sistema que exige vigilância permanente. Drenagens, diques, comportas e leitos de cheia precisam de acompanhamento regular. Quando a manutenção falha, o risco regressa silenciosamente. O assoreamento progressivo, apontado por vários relatórios técnicos nacionais, reduz a capacidade hidráulica do rio e aproxima o sistema do limite. Não basta investir em grandes obras pontuais, é essencial planear ciclos contínuos de monitorização e intervenção preventiva.

É precisamente aqui que a dimensão europeia deixa de ser opcional e passa a ser estratégica. O Plano de Recuperação e Resiliência, os fundos de coesão e os futuros quadros comunitários não podem limitar-se à lógica administrativa dos projetos dispersos. Precisamos de uma visão integrada que permita usar estes instrumentos para reconstruir, prevenir e transformar o território. A política de coesão europeia nasceu para garantir equilíbrio e solidariedade entre regiões, e hoje essa coesão deve traduzir-se também na segurança hídrica e climática dos países mais expostos.

Depois desta sequência de fenómenos naturais adversos, Portugal necessita de um verdadeiro programa estrutural para a água e para a proteção do território. Um plano que, guardadas as devidas proporções históricas, recorde a ambição de um plano Marshall, não como slogan político, mas como compromisso coletivo para reconstruir com visão de longo prazo. Um plano que una financiamento europeu, decisão nacional e estabilidade política suficiente para executar obras estruturais sem cair numa guerrilha ideológica permanente.

Quando falamos de desassoreamento preventivo, revisão técnica do dique de Coimbra, planos de manutenção regular e preventiva ou reavaliação dos leitos de cheia, não estamos a discutir bandeiras partidárias. Estamos a falar de segurança pública, de resiliência territorial e de responsabilidade intergeracional. A Europa pode e deve ser parte desta resposta, não apenas como financiadora, mas como espaço de coordenação técnica e científica que permita decisões fundamentadas e estáveis.

Isso não significa cair na crítica fácil ou na ansiedade permanente. Governar um território é complexo, exige tempo, planeamento e estabilidade. Há momentos em que a sociedade precisa também de permitir que quem governa execute soluções estruturais sem pressão imediatista. Responsabilizar não é impedir governar. Dar tempo à governação para trabalhar é igualmente parte da maturidade democrática.

Contudo, permitir governar não pode significar adiar decisões difíceis. O horizonte precisa de incluir intervenções de fundo, desassoreamento preventivo nas zonas críticas do Mondego, elaboração de planos hídricos nacionais dignos desse nome, criação de calendários públicos de manutenção preventiva e integração real entre ciência, engenharia e proteção civil.

Leonardo da Vinci escreveu que a água é a força motriz da natureza. A frase atravessa séculos porque lembra uma verdade simples, não somos donos dos rios, somos apenas administradores temporários do território onde eles passam.

Talvez o desafio do nosso tempo seja este, aprender a lidar com a natureza sem a tratar como inimiga, mas também sem a subestimar. Planear mais, investir melhor, respeitar limites antigos que a ciência moderna apenas confirmou. Não se trata de desistir da engenharia, mas de a colocar no lugar certo, nem acima da natureza, nem contra ela, mas ao seu lado.

Porque cada vez que acreditamos que dominámos um rio, esquecemos que ele apenas está a esperar pelo momento de nos lembrar quem sempre teve a última palavra.


© Sapo