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O que é o islamo-gauchisme?

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03.04.2026

Tenho a sorte de concordar na maioria das vezes com Miguel Morgado. No seu último programa na SIC Notícias chamou a atenção para esta nova realidade, o islamo-gauchisme – que, sem grandes prejuízos para ambas as línguas, podemos traduzir como islamo-esquerdismo. Esta visão, última encarnação do ódio ao mesmo tempo conceptual e visceral da extrema-esquerda ao Ocidente e aos ocidentais, está bem patente num vídeo do líder francês do partido radical La France Insoumise, Jean-Luc Mélenchon.

Esta forma de travestismo intelectual acusa o homem branco sub specie aeternitatis de todos os males do planeta, nomeadamente e essencialmente, do racismo, da escravatura e do colonialismo universais. Nessa acusação, além de graves e lamentáveis erros e imprecisões históricos, são entoadas loas e oferecidos em bandeja os despojos do nosso estilo de vida aos seguidores do Profeta, juntamente com o sacrifício do nosso sistema de valores: direitos humanos, democracia liberal e liberdades fundamentais. Trata-se de uma aproximação inconcebível da esquerda marxista ao radicalismo islâmico que, em nome de uma suposta necessidade de tolerância, entretece conceções e deliberações que estão nos antípodas da axiologia ocidental.

No dito vídeo, som e imagem recolhidos durante um comício, em tom irónico e mordaz, Mélenchon acusa os europeus de deverem tudo aos africanos: no continente-Mãe, há muito tempo, foi preciso alguns seres assumirem o bipedismo para levarem ao velho continente, ainda selvagem e primitivo, alguma luz. O episódio fundacional da Humanidade, sem dúvida com contexto histórico, no limite, tolerável, carecendo, contudo, de legitimidade nas suas conclusões, daria luz verde aos africanos para liderarem a agenda política e cultural e de, no limite, se superiorizarem aos seus hóspedes. A África francófona (mas não só), de maioria muçulmana, hoje imigrada nos subúrbios de Paris e em outras grandes cidades europeias, teria todo o direito de reivindicar para si as vantagens materiais dos seus ex-colonizadores e negreiros. Estes pertences, colhidos ao abrigo da injustiça e da violência, simplesmente estariam a retornar à sua origem.

Esta tentativa flagrante de arrecadar os votos dos imigrantes muçulmanos, agora vindos de várias latitudes e cada vez em maior número, obedece a uma lógica de vitimização adotada há algum tempo e vocalizada por uma parte da esquerda política. Após a perda de eleitorado e consequente derrota em sucessivas eleições, os socialistas e afins arvoram-se nos porta-vozes e defensores, perante os brancos fascistas, dos direitos dos recém-chegados. Obviamente que tal cantoria agrada ao seu público, muitas vezes desinformado e desnorteado em terra estranha. A cartada do racismo e o trunfo do esclavagismo pesam imenso nesta estratégia. Todavia, a História, apesar de ser maleável a várias interpretações, é madrasta nos factos: como dizia Churchill, eles, os factos, são teimosos. A escravatura é comum a todas as civilizações e a inúmeros povos: nenhum povo conquistador e obreiro, até muito recentemente, prescindiu dela e dos seus benefícios. Gregos, chineses, vários povos africanos e americanos não se coibiram de requisitar pela força populações inteiras para atingir os seus objetivos. Mas, chegados a este ponto, pode ser útil pesquisar pela sua abolição (ou abolições). Contemporaneamente condenada – praticamente – por todas as nações, a cronologia oferece a quem quiser analisar, a evolução do decréscimo e liquidação mundiais da atividade.

Curiosamente, foi um país muçulmano, a Mauritânia, o último a abolir a escravatura, já no final do século XX, em 1981 (no entanto, apenas passou a ser criminalizada em 2007). Não deixa de ser sintomático que a Al Jazeera, num documentário sobre a escravatura realizado em parceria entre a RTP, o canal francês Arte e a LX Filmes em 2018, tenha eliminado o primeiro episódio, dando primazia ao segundo, no qual também o lettering foi alterado para dar a entender aos incautos telespectadores que foram os portugueses, na sua chegada ao norte de África, os iniciadores de tão hedionda prática. "O referido capítulo inaugural, intitulado: 641-1375 - Para Além do Deserto, examina 'o processo que levou o Império Muçulmano a tecer de forma duradoura uma imensa rede de tráfico de escravos pela África, Médio Oriente e Ásia'", conforme noticia o Diário de Notícias a 17 de agosto no mesmo ano.

Conforme afirma Morgado, foi na Europa cristã que se deram os primeiros passos na abolição da reprovável empresa (Portugal à cabeça). Na sua obra de 2015, Submissão, Houellebecq coloca em texto a situação política e social de uma França em 2022 onde os socialistas fazem uma aliança com a Fraternidade Muçulmana, conseguindo assim assegurar a vitória nas eleições presidenciais a Mohammed Ben Abbes. O outrora moderado islamista, de modo suave e gradual, mas insistente, vai introduzindo alterações que afetam a vida da sociedade francesa, desde a aceitação da poligamia e do véu até à permissividade em relação à sharia.

O comentador de Torto e Direito alerta justamente para o perigo de se cair numa espiral de intolerância e de ódio, onde o espaço democrático e moderado perde paulatinamente, mas firmemente, o seu palco no espaço público.

Paulo Pinto é licenciado em Filosofia pela FLUP. Tem o curso de Doutoramento em Ciência Política - Especialidade em Teoria e Análise Política (Diploma de Estudos Avançados) pela FCSH da Universidade Nova de Lisboa. Detém ainda um Bacharelato em Fotografia (ESAP), uma Pós-Graduação em Gestão de Turismo e Hotelaria (Porto Business School) e frequentou a licenciatura em Relações Internacionais (Universidade Lusíada – Campus do Porto). É Professor e formador nas áreas de Filosofia, Psicologia, Sociologia, Turismo, História e Política. Publicou dois livros de contos e escreve regularmente na imprensa nacional.


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