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Comunicar saúde é cuidar: o papel (invisível) das mulheres na humanização da tecnologia

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03.03.2026

Por Mónica Carvalho, Medical Systems Marketing & Corporate Communication Specialist Fujifilm Portugal

Num setor onde a tecnologia e a ciência evoluem a um ritmo cada vez mais acelerado, é fácil concentrarmo-nos apenas num dos lados da moeda, isto é, nos avanços técnicos. De facto, falar em maior precisão, mais rapidez, melhor desempenho é fundamental, mas não exclusivo. Ainda mais na área da saúde, onde a inovação não pode ser apenas tecnológica, tem de ser também humana.

Durante décadas, a tecnologia aplicada à saúde foi maioritariamente pensada e liderada por homens. Hoje, o cenário está a mudar. Assistimos a uma presença crescente de mulheres na engenharia biomédica, na investigação clínica, na imagiologia, na gestão hospitalar e na indústria que desenvolve soluções médicas. Ainda assim, o desafio não está apenas na representatividade, algo que se tem vindo a tentar cumprir, mas sim na influência real dessas vozes nas decisões estratégicas.

Enquanto profissional na área de Marketing e Comunicação numa empresa tecnológica de saúde, trabalho diariamente na interseção entre inovação, profissionais de saúde e impacto clínico. Essa posição permite-me observar algo essencial: a tecnologia só cumpre verdadeiramente o seu propósito quando é desenvolvida e comunicada com empatia.

Afinal, empatia, no contexto da inovação médica, não é um conceito abstrato. É a capacidade de compreender as necessidades de um radiologista sob pressão, de uma equipa clínica que precisa de decisões rápidas e precisas, ou de um paciente que enfrenta um diagnóstico com incerteza. É perceber que por detrás de cada equipamento existe um contexto humano complexo.

As mulheres trazem frequentemente para a inovação uma abordagem mais integradora, colaborativa e orientada para o propósito. Não se trata de uma questão de género como fator isolado, mas da riqueza que a diversidade acrescenta aos processos de decisão. Equipas diversas antecipam melhor desafios, comunicam de forma mais clara e desenvolvem soluções mais inclusivas.

Especificamente na área da tecnologia médica, onde falamos de diagnóstico precoce, de soluções portáteis que aproximam cuidados de saúde das comunidades ou de ferramentas digitais que melhoram a eficiência clínica, a empatia torna-se uma competência estratégica. É ela que garante que a inovação não é apenas sofisticada, mas relevante. Ser mulher neste setor é assumir um duplo compromisso: com a excelência técnica e com a dimensão humana da tecnologia. É contribuir para que as soluções não sejam apenas eficazes, mas também acessíveis e compreensíveis. É assegurar que comunicamos ciência com clareza e que traduzimos complexidade em benefício real para profissionais e pacientes.

E é por isso mesmo que o Dia Internacional da Mulher deve ser mais do que um momento de celebração. Deve ser um convite à reflexão sobre como construímos o futuro. Precisamos de continuar a incentivar o acesso das mulheres às áreas STEM, a promover a sua presença em cargos de decisão e, sobretudo, a criar culturas organizacionais onde diferentes perspetivas são valorizadas.

O futuro do diagnóstico será mais digital, mais inteligente e mais conectado. Mas só será verdadeiramente transformador se for também mais empático e mais diverso. Até porque, na saúde, cada avanço tecnológico pode representar uma vida melhorada ou salva. Não podemos, por isso, dissociar inovação de responsabilidade. E essa responsabilidade exige talento, visão e sensibilidade, qualidades que não têm género, mas que ganham força quando todas as vozes participam na construção do caminho.

Só na conjugação entre tecnologia e humanização é que se consegue continuar a desenhar o futuro do diagnóstico.


© Sapo