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A escada está lá para todos, mas o degrau partido é só para as mulheres

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De acordo com um estudo recente[i], até ao nascimento do primeiro filho ou da primeira filha não se observam diferenças relevantes entre homens e mulheres na sua progressão, no emprego académico ou na probabilidade de alcançar posições permanentes. É a partir da maternidade que o degrau quebra. Cerca de uma em cada três mulheres abandona a academia, o que se traduz numa penalização duradoura e profunda. Oito anos depois, a probabilidade de uma mulher continuar na academia é cerca de 29% inferior ao que seria esperado sem maternidade. Entre os homens, pelo contrário, o efeito da paternidade é praticamente inexistente, confirmando que a parentalidade afeta de forma profundamente desigual as trajetórias profissionais.

A divergência é igualmente visível na progressão. A maternidade reduz de forma significativa a probabilidade de alcançar uma posição permanente, ficando cerca de 23% abaixo da dos homens. Já para os homens, a paternidade não tem impacto mensurável, evidenciando uma assimetria estrutural na forma como o sistema responde à parentalidade. Também na produção científica surgem diferenças claras. Após a maternidade, o número anual de publicações das mulheres, tanto em contagem simples como em métricas ajustadas pela qualidade das revistas, apresenta um declínio contínuo ao longo dos anos subsequentes, ao passo que a trajetória produtiva dos homens permanece praticamente inalterada. Ainda assim, o estudo mostra que estas diferenças de produtividade explicam apenas uma pequena parte das desigualdades observadas na progressão para as posições permanentes. O principal mecanismo subjacente à desigualdade não é a queda nas publicações, mas sim a maior probabilidade de saída da carreira académica entre as mulheres após a maternidade.

Um dos contributos centrais deste estudo é mostrar que estas diferenças não resultam de menor ambição ou motivação profissional entre homens e mulheres. No início da carreira, homens e mulheres têm aspirações semelhantes e valorizam de forma comparável a progressão, a estabilidade e o desafio intelectual. No entanto, as mulheres assumem uma carga muito maior de cuidados com os filhos, chegando a realizar até cinco vezes mais tarefas intensivas, o que reduz o tempo disponível para investigação. O estudo identifica também a mobilidade geográfica como outro fator crítico para as desigualdades. A progressão académica exige frequentemente mudar de instituição ou país, mas após a maternidade as mulheres tornam-se menos disponíveis para o fazer, limitando o acesso a oportunidades. Estas penalizações são ainda mais fortes em ambientes altamente competitivos e em contextos com poucos modelos femininos em posições séniores.

Os fatores por vezes apontados como possíveis atenuantes, como períodos longos de licença parental ou o apoio de avós e avôs já reformados, não reduzem de forma significativa a penalização que recai sobre as mulheres. Mesmo quando os pais usufruem de licenças mais longas, o impacto positivo para a carreira das mães é limitado, e os próprios homens que se afastam por mais tempo também enfrentam perdas na progressão. Deste modo, os resultados indicam que o sistema penaliza qualquer interrupção, mas que as mulheres interrompem mais e durante mais tempo devido a constrangimentos estruturais, acumulando assim desvantagens persistentes.

Perante estes resultados, a questão passa a ser como “consertar” o degrau. As autoras defendem que medidas focadas apenas no recrutamento ou na promoção não chegam. É necessário atuar nas condições estruturais que moldam as carreiras após a parentalidade, incluindo apoio ao cuidado infantil, maior flexibilidade na avaliação de desempenho, incentivos à partilha das responsabilidades familiares e uma revisão de normas que valorizam disponibilidade total e elevada mobilidade.

[i] Cairo, S., Ivandic, R., Lassen, A. S., & Tartari, V. (2026). Parenthood and the career ladder: Evidence from academia (CEP Discussion Paper No. 2160). Centre for Economic Performance, London School of Economics and Political Science


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