No Médio Oriente, um pessimista é simplesmente um otimista com experiência
A morte de Ali Khamenei não encerra apenas uma biografia longa e implacável, mas interrompe um eixo de gravidade. Durante trinta e seis anos, o sistema político iraniano organizou-se em torno da sua figura como se esta concentrasse, num único centro, as funções de árbitro, de teólogo e de comandante. Sobreviveu ao legado de Ruhollah Khomeini e, ao ultrapassá-lo em duração, deixou de ser herdeiro para se tornar arquiteto. No Irão, o líder supremo nunca foi um ornamento. Foi o ponto de convergência das lealdades concorrentes e o lugar onde se resolviam os conflitos entre as instituições formais e as estruturas paralelas.A sua eliminação abre um intervalo histórico cuja natureza permanece indeterminada. A operação foi preparada durante semanas, combinando diplomacia intermitente e planeamento militar metódico. Houve contactos em Mar-a-Lago, prévios às negociações em Omã e em Genebra. Circularam emissários, entre os quais Jared Kushner e Steve Witkoff. Foram transmitidas exigências claras: o fim do enriquecimento de urânio, a suspensão do programa de mísseis balísticos e o corte de financiamento aos proxies e milícias regionais.A CIA, contudo, já recolhia há muito informação sobre os alvos iranianos. Ao descobrir onde estaria Ali Khamenei no sábado de manhã, foi antecipado o ataque que estava previsto apenas para a noite. Ao amanhecer, mísseis atingiram múltiplos alvos no território iraniano, incluindo o complexo onde se encontrava o líder supremo e onde também se reunia o Conselho de Defesa. Segundo Israel, quarenta líderes e altas patentes iranianas terão sido eliminados no primeiro minuto da operação militar coorganizada com os Estados Unidos.Mas Ali Khamenei preparou a sua sucessão. Entre os nomes avançados nos últimos dias figuravam Mojtaba Khamenei, segundo filho do líder supremo. Alireza Arafi, clérigo com assento no Conselho dos Guardiões. Mohammad Mehdi Mirbagheri, da ala mais radical. Gholam-Hossein Mohseni-Ejei, presidente do judiciário. E Hassan Khomeini, neto de Ruhollah Khomeini. A Constituição prevê um Conselho Transitório, já instituído, que inclui Alireza Arafi, o presidente Masoud Pezeshkian e Gholam-Hossein Mohseni-Ejei.Formalmente, caberá à Assembleia dos Peritos designar o sucessor, com a “validação” do Conselho dos Guardiões. Na prática, a decisão dependerá do equilíbrio entre o clero e a Guarda Revolucionária. O Irão nunca operou como uma pirâmide. Assemelha-se mais a um sistema de círculos concêntricos, onde a autoridade se exerce por intermediação e não de forma linear. O candidato deve ser um jurista sénior, com conhecimento profundo da jurisprudência no Islão xiita, excluindo em princípio figuras como Ali Larijani, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, ou o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf.Os exilados apresentam uma clareza programática que contrasta com a ausência de tração interna. Reza Pahlavi defende um referendo e eleições livres, elogia Trump e propõe um plano acelerado de transição. Outros advogam uma república secular, alavancada sobre a dissolução da Guarda Revolucionária. A sociedade iraniana, exausta, deseja uma mudança. Mas desejar uma mudança não equivale necessariamente a aceitar lideranças importadas.
A resposta foi quase imediata – e estrategicamente desastrosa. O Irão lançou mísseis e drones contra bases norte-americanas no Bahrein, no Kuwait, no Catar, na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos, entre outros. A maioria foi intercetada, mas registaram-se danos civis e infraestruturas atingidas. O Conselho de Cooperação do Golfo reuniu-se de emergência para coordenar uma posição comum. Tendo em conta o que a Arábia Saudita afirmou em público e defendeu em privado, o desfecho diplomático dificilmente surpreenderá. Paralelamente, o Estreito da Ormuz, por onde circula cerca de um terço do petróleo transportado por via marítima, está novamente no centro das atenções. Em junho, a mera ameaça de bloqueio projetou o preço do barril para valores próximos dos noventa dólares. A OPEP pondera aumentar a produção para amortecer o choque. Mas a volatilidade não é apenas um efeito colateral. É um instrumento estratégico que o regime iraniano não hesitará em usar. As alternativas logísticas da Arábia Saudita e dos Emirados não compensaram totalmente uma interrupção massiva e o recurso à reserva estratégica dos EUA é possível, mas terá capacidade e duração limitadas – o risco de o preço do petróleo ultrapassar os 100 dólares por barril é real.No interior do país, continua a ser claro que o aparelho de segurança não cedeu. As unidades policiais, as FARAJA, sofreram ataques às suas sedes. Concebidas para impedir que as manifestações se transformassem num movimento político robusto, até agora cumpriram a sua função. O topo da pirâmide caiu, mas a base não cedeu. As Forças Armadas da República Islâmica do Irão, a Artesh, historicamente profissionais mas mantidas à margem do núcleo ideológico, parecem ter sido menos atingidas. Ainda assim, surgem relatos de deserções pontuais.
A comparação com 2003 impõe-se. A queda de Saddam Hussein desmantelou um regime e abriu um ciclo de desordem que reconfigurou o Médio Oriente. A teoria da decapitação estratégica parte do pressuposto de que eliminar o vértice enfraquece a estrutura. Por vezes enfraquece. Noutras circunstâncias, fragmenta e radicaliza. O desfecho depende menos da eficácia do ataque inicial e mais da capacidade subsequente de gerir o vazio político criado. Pouco acreditarão que Donald Trump tenha pensado mais além do assassinato do líder supremo.Já a União Europeia voltou a contemporizar. Ursula von der Leyen convocou uma reunião do Colégio de Comissários para segunda-feira, enquanto os ministros dos Negócios Estrangeiros se reuniram de urgência por videoconferência no domingo, culminando num comunicado que chama a atenção apenas por ficar aquém da posição do E3. França, Alemanha e Reino Unido declararam-se prontos a defender os seus interesses e os dos seus aliados no Golfo, juntamente com os Estados Unidos. Keir Starmer afinal permitirá a Trump recorrer às bases britânicas para atacar depósitos de mísseis do Irão. Friedrich Merz foi mais longe, “relativizando” o peso do direito internacional e sugerindo que Berlim poderá aceitar uma ordem de grandes potências moldada por Washington, em vez de assente em regras. A questão é se defenderá o mesmo na Gronelândia e em Kiev. Relativamente ao direito internacional humanitário, um ataque a uma escola é um ataque a uma escola – em Teerão, Kiev ou Nuuk.O que emerge deste momento não é uma conclusão, mas uma incógnita. O Irão entra numa fase de transição cujo desfecho pode oscilar entre reforço autoritário ou a fragmentação interna. A economia já se encontrava sob pressão, com inflação persistente e uma moeda desvalorizada. A morte de Khamenei não resolve esses constrangimentos. Acrescenta-lhes incerteza política. Eliminar um líder é ato de força. Substituir a função que desempenhava é uma questão de arquitetura institucional que não terá passado pela cabeça de Trump quando declarou que o conflito durará apenas quatro semanas. O sistema iraniano foi desenhado para resistir a crises externas. Não foi pensado para operar durante muito tempo sem um líder supremo. A questão decisiva não é apenas quem sucede formalmente a Khamenei. É se as diferentes camadas do regime aceitarão essa sucessão como legítima.Estamos perante um novo dia no Irão cuja alteração é factual, mas cujo significado continuará em disputa. Entre a celebração precipitada e o alarmismo automático abre-se um espaço demasiado amplo. O vazio não é, por si só, libertação. É uma condição instável, capaz de gerar reforma, repressão acrescida ou um arranjo intermédio mais opaco, marcado pelo risco de fragmentação interna, pela delegação descoordenada de poder militar e pela erosão do controlo central, com incerteza quanto ao destino do urânio enriquecido.No Médio Oriente, um pessimista é simplesmente um otimista com experiência. Raramente oferece transições lineares. Oferece momentos em que a história acelera e obriga cada ator a revelar o que está disposto a preservar e o que está disposto a sacrificar.Esperemos que, mais uma vez, o povo do Irão não seja o sacrificado.
