WrestleMania 42: agora não pode mesmo falhar
A WrestleMania chega já neste fim de semana e com ela está de volta aquela sensação difícil de explicar a quem nunca viveu isto: uma mistura de expectativa, entusiasmo e a certeza de que estamos prestes a assistir a algo que pode ficar na memória durante anos. No entanto, neste ano sente-se algo diferente.
Depois de um 2025 e início de 2026 que claramente ficaram aquém das expectativas, com decisões criativas que não convenceram e histórias que muitas vezes pareceram perder-se pelo caminho, a WWE chega a esta WrestleMania sob um olhar mais crítico do que o habitual. Há uma exigência maior por parte dos fãs e, acima de tudo, uma necessidade evidente de voltar a criar momentos que marquem.
Essa pressão não se sente apenas dentro do ringue, mas também fora dele. Nos últimos meses, os preços dos bilhetes também têm sido tema de discussão, o que obrigou a WWE a adaptar-se. Prova disso são as várias campanhas de descontos que têm surgido, como acontece para o evento marcado para Lisboa, a 3 de junho, onde até domingo é possível encontrar 25% de desconto na compra de packs de quatro bilhetes. É um sinal claro de que hoje já não basta anunciar um grande espetáculo, é preciso convencer as pessoas a fazer parte dele.
É precisamente por isso que esta WrestleMania ganha um peso maior. Não basta ser boa ou cumprir, tem mesmo de marcar as nossas memórias e criar aqueles momentos que fazem alguém que nunca viu wrestling parar e pensar: “isto é diferente”.
Ao longo deste artigo, vou olhar para seis combates dos 13 já anunciados, três de sábado e três de domingo, que têm tudo para roubar as atenções neste fim de semana e poder definir a WrestleMania 42.
CM Punk (c.) vs. Roman Reigns pelo Título Mundial
Este é daqueles que por si só, já justificam uma WrestleMania.
De um lado, CM Punk, o rebelde, o inconformado, o homem que sempre pareceu lutar contra o sistema e que, mesmo assim, nunca perdeu a ligação com o público. Do outro, Roman Reigns, a figura dominante desta era, construído como alguém quase intocável e uma presença que impõe respeito assim que entra na arena e de quem os fãs vieram a aprender a gostar ao longo dos anos.
É o tipo de confronto que não precisa de muito mais para funcionar: duas visões completamente diferentes do que é ser o “rosto” da WWE.
Confesso, e sem rodeios, que vou estar a torcer pelo Punk pois a sua história, a sua maneira de se conectar com o público, com as promos e “pipe-bombs” (onde fala constantemente de coisas que são “proibidas” mas de que toda a gente tem conhecimento e em relação às quais concorda), e a forma como faz cada combate parecer mais real, fazem-me querer vê-lo naquele momento final com o título na mão.
Mas olhando friamente para o que está em jogo, é difícil não pensar que Roman Reigns tem de sair vencedor. Não apenas pelo título, mas pela sua personagem.
Reigns foi construído durante anos como uma força dominante, quase inevitável e numa altura em que a WWE precisa de consistência, figuras fortes e histórias novas, uma derrota aqui pode quebrar essa aura de forma difícil de recuperar. Há combates em que o coração e a lógica não estão do mesmo lado. E este é claramente um deles.
Jacob Fatu vs. Drew McIntyre num Unsanctioned Match
Um Unsanctioned Match nunca é só mais um combate. É uma guerra sem regras, sem limites e, acima de tudo, sem controlo. E quando juntamos nomes como Jacob Fatu e Drew McIntyre percebemos rapidamente o que aí vem.
Para quem cresceu a ver a antiga ECW, este é o tipo de confronto que faz lembrar porque é que o wrestling também pode ser caótico e brutal. Não estamos a falar de técnica pura ou de um storytelling clássico mas sim de impacto, cadeiradas na cabeça e mesas que vão ser trespassadas.
Do lado de Fatu, temos um homem que viu meses da sua carreira desaparecerem depois de um ataque misterioso. Nunca houve uma confirmação oficial, mas a suspeita generalizada foi de que Drew estava lá.
Do lado de McIntyre, temos alguém que perdeu tudo num curto espaço de tempo. O título da WWE escapou-lhe das mãos e com ele a oportunidade de estar no main event da WrestleMania, tudo por causa de Jacob Fatu.
Espera-se violência, sangue e momentos daqueles que nos fazem levar as mãos à cabeça e perguntar como é que aquilo aconteceu. E cá para mim, Drew sairá vencedor pois acredito que o "homem misterioso" que atacou Fatu aparecerá... mas é só um palpite.
Stephanie Vaquer (c.) vs. Liv Morgan pelo Título Mundial Feminino
Há combates que nascem grandes e depois há aqueles que crescem semana após semana, até se tornarem impossíveis de ignorar.
Stephanie Vaquer e Liv Morgan chegam a esta WrestleMania com uma rivalidade que tem de tudo: intensidade, história e, acima de tudo, duas lutadoras que sabem exatamente como prender a audiência. Para mim, este é daqueles combates que podem muito bem ser os mais falados de toda a edição do WrestleMania, se lhe derem o tempo que merece.
Vaquer traz uma presença diferente, extremamente técnica, de alguém que parece estar sempre um passo à frente dentro do ringue. Já Liv Morgan é o oposto, no melhor sentido: emocional, imprevisível e cada vez mais confortável no papel de vilã, com uma capacidade enorme de fazer o público reagir.
Se há alguém que precisa mais desta vitória é Liv Morgan. Não apenas por isso significar finalmente vencer um combate na WrestleMania mas também para se afirmar definitivamente como a grande heel do RAW. Aquela figura que move histórias, que se torna impossível de ignorar; e neste momento a fação dela, Judgment Day, também precisa de ter uma líder assim.
Mas sendo WrestleMania, nada é assim tão simples pois a rivalidade tem camadas suficientes para justificar algo mais. Interferências, reviravoltas, momentos que podem mudar completamente o rumo do combate. E quando isso entra em jogo, tudo fica em aberto.
Oba Femi vs. Brock Lesnar
E já que falámos de combates que se constroem com semanas de história, há outros que se vendem apenas com uma imagem. Brock Lesnar de um lado. Oba Femi do outro.
E sinceramente, não é preciso muito mais.
Estamos a falar de dois autênticos fenómenos físicos, dois homens que entram no ringue e fazem tudo parecer mais real, intenso; e pela magnitude de ambos, este combate já tem algo de especial. Há aquela sensação imediata de que, quando começarem a trocar golpes, tudo pode acabar a qualquer momento.
E é exatamente por isso que acredito que este não será um combate longo. Aliás, tudo aponta para algo direto, quase explosivo, provavelmente a rondar os 10 minutos, no máximo. O que, por um lado, pode limitar um pouco o impacto a nível de história, mas, por outro, pode torná-lo ainda mais memorável.
Do ponto de vista pessoal, é daqueles combates difíceis pois sou fã de ambos; mas olhando para o que pode ser o futuro, parece-me claro que Oba Femi tem de sair por cima. Uma vitória aqui iria colocá-lo imediatamente noutro patamar, quase como uma passagem de testemunho silenciosa. Mas... estamos a falar de Brock Lesnar, e quando ele está envolvido nunca dá para ter certezas.
Penta (c.) vs. Rey Mysterio vs. JD McDonagh vs. Je'Von Evans vs. Rusev vs. Dragon Lee num Ladder Match pelo Título Intercontinental
É verdade que a história deste combate praticamente não existiu. Foi anunciado de um momento para o outro e teve pouco tempo para “respirar” no RAW. Mas, curiosamente, isso acaba por não ser o mais importante aqui. Porque quando se junta este tipo de talento e se acrescentam escadotes... tudo muda.
Temos um conjunto de estilos diferentes dentro do mesmo combate. A experiência de Rey Mysterio, a intensidade do campeão Penta e de Dragon Lee, a agressividade de Rusev, a imprevisibilidade de McDonagh e depois há Je'Von Evans, que entra como o fator mais fresco e talvez o mais entusiasmante.
Num ladder match, a história escreve-se no momento. São os riscos. As quedas. Os momentos em que toda a gente pergunta se existe realmente gravidade. E com estes nomes, é difícil imaginar que não venhamos a ter dois ou três momentos que passam imediatamente para os highlights da WrestleMania.
No meio disto tudo, olho para Evans como a escolha mais interessante. Um miúdo nascido em 2004, cheio de energia, com tudo para representar o futuro; e este tipo de palco é exatamente onde se criam as estrelas.
Ainda assim, sendo honesto, este é daqueles combates em que qualquer vencedor far-me-ia feliz e satisfeito. Porque mais do que o resultado, o que vai ficar são os momentos.
Cody Rhodes (c.) vs. Randy Orton pelo título da WWE
Este é daqueles combates que, no papel, tinham tudo para ser gigantes.
Cody Rhodes e Randy Orton não são apenas dois nomes grandes, mas duas histórias que se cruzam naturalmente. Há passado, há aquela tensão que podia ter sido explorada até ao limite. Tudo estava alinhado para termos uma rivalidade daquelas que nos prendem semana após semana.
Mas a verdade é que isso não aconteceu.
O envolvimento de Pat McAfee e do cantor Jelly Roll acabou por desviar o foco, trazendo mais ruído do que profundidade à história. E quando estamos a falar de um combate desta dimensão, isso sente-se. Fica aquela sensação de oportunidade perdida, de algo que podia e devia ter sido muito maior.
Ainda assim, há algo que mantém este combate na minha lista: o mistério. Será que foi mesmo Pat McAfee a ordenar os ataques feitos por Orton ou haverá uma “entidade” por de trás disto tudo? Um nome ainda maior, quem sabe...
Porque no wrestling, aquilo que parece não funcionar pode muito bem transformar-se em ouro, de um momento para o outro.
E por isso é que quero que Randy Orton vença este combate e leve para casa o título pela 15.ª vez, para ver quais são os próximos capítulos desta história, que certamente não acabará aqui.
E assim chego ao fim desta antevisão com uma certeza simples: esta WrestleMania tem tudo para ser especial mas também tem muito a provar.
Neste fim de semana, a partir da meia-noite, essa oportunidade está à distância de um clique na Netflix.
Crónicas de um fã de Wrestling
