Em defesa da decência, da cortesia e da bondade
Por vezes, por momentos, todos nós nos sentimos ausentes, como que desligados do local onde nos encontramos e de nós mesmos. O local é demasiado intrusivo e desagradável, ou a situação é violenta e ameaçadora. Precisamos de nos proteger, de desligar. Procuramos sossego para a nossa dor ou confusão. Por vezes o nosso organismo faz o mesmo, de forma autónoma, quando antevê um desastre iminente, um sofrimento grave e violento.
Separadas dos pais, abandonadas ou ignoradas, muitas crianças regridem no seu comportamento e deixam de comunicar com o exterior. O metabolismo e o sistema hormonal destas crianças desequilibram-se e descontrolam-se. A criança deixa de comer, perde peso, não cresce e perde cabelo.
Em abandono emocional, agredidas e traumatizadas, vemos algumas destas crianças, deitarem-se, literalmente, lentamente, e enrolarem-se sobre si mesmas: reproduzem a posição do feto no útero da mãe e dão a sensação de retroceder até ao momento em que todos os seres humanos se sentem protegidos e amados. A criança perde a consciência da situação, a sua história e identidade esvaem-se. Sozinha e ferida, a criança desconecta-se de si mesma e dos outros; daqueles que a feriram. Por vezes, uma nova personalidade desponta onde o outro é um elemento hostil. No melhor dos casos, o adulto passou a ser irrelevante pois não agiu como era expectável: retirou-se ou ausentou-se. A criança sente-se vazia, ferida e zangada, desorientada.
Quando abandonamos a criança ou a ferimos, o vazio, a angústia e o ressentimento invadem-na. Ela reconstrói-se no trauma e transforma-se.
Zangada, a........
