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Em defesa da decência, da cortesia e da bondade

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20.02.2026

Por vezes, por momentos, todos nós nos sentimos ausentes, como que desligados do local onde nos encontramos e de nós mesmos. O local é demasiado intrusivo e desagradável, ou a situação é violenta e ameaçadora. Precisamos de nos proteger, de desligar. Procuramos sossego para a nossa dor ou confusão. Por vezes o nosso organismo faz o mesmo, de forma autónoma, quando antevê um desastre iminente, um sofrimento grave e violento.  

Separadas dos pais, abandonadas ou ignoradas, muitas crianças regridem no seu comportamento e deixam de comunicar com o exterior. O metabolismo e o sistema hormonal destas crianças desequilibram-se e descontrolam-se.  A criança deixa de comer, perde peso, não cresce e perde cabelo.  

Em abandono emocional, agredidas e traumatizadas, vemos algumas destas crianças, deitarem-se, literalmente, lentamente, e enrolarem-se sobre si mesmas: reproduzem a posição do feto no útero da mãe e dão a sensação de retroceder até ao momento em que todos os seres humanos se sentem protegidos e amados. A criança perde a consciência da situação, a sua história e identidade esvaem-se. Sozinha e ferida, a criança desconecta-se de si mesma e dos outros; daqueles que a feriram. Por vezes, uma nova personalidade desponta onde o outro é um elemento hostil. No melhor dos casos, o adulto passou a ser irrelevante pois não agiu como era expectável: retirou-se ou ausentou-se. A criança sente-se vazia, ferida e zangada, desorientada.

Quando abandonamos a criança ou a ferimos, o vazio, a angústia e o ressentimento invadem-na. Ela reconstrói-se no trauma e transforma-se.

Zangada, a criança recusa e subtrai-se à autoridade do adulto, desafia, provoca e agride. Só faz o que quer, nunca o que lhe mandam fazer. O conflito com os pais, primeiro, depois com os professores, o treinador… é a vivência normal da criança.  O adulto reage muito mal a estes comportamentos. Este menino mantém-se afastado dos outros embora adore ser admirado e procurado pelos seus pares. Na escola, ele desperta admiração e adquire seguidores pois é o único que desafia frontalmente e abertamente o poder institucional, o professor. Quando diz não, e fá-lo frequentemente, é mesmo não. Não aceita a autoridade e tem extrema dificuldade em aceitar um não. Não pede autorização para nada. Com bons modos e com muita paciência é possível convencê-lo a seguir-nos. Com desconhecidos, que não o pressionam e têm um comportamento gentil, é um menino (quase) perfeito e normal.

Quando institucionalizados, num colégio interno, privado, para meninos de famílias abastadas, ou numa instituição pública, para meninos de cidadãos comuns, os dois meninos vão aprender, na melhor das hipóteses, a arte da sobrevivência pela manipulação. O expectável é que o primeiro menino, quando adulto, tenha muito mais “sucesso” de que o menino comum.

Geralmente, este adulto é uma pessoa inteligente, mas amoral, insensível ao que é justo ou injusto, ao certo e ao errado, ao bom e ao mau. Só o que lhe interessa conta. Mente, seduz e vitimiza-se. Tenta fragilizar, denigrir e humilhar quem se lhe opem. Quando necessita ou quer algo, é imparável. Se a situação o permite fazer com eficiência, intimida, insulta e ameaça. É insensível à resistência do outro que considera descabida e uma provocação. Culpa a vítima e despreza-a por não ter cedido aos seus propósitos e considera-a fraca. Não sente vergonha ou remorso, não ajuda ninguém, não manifesta compaixão. Este adulto, serve-se das pessoas como se fossem produtos de consumo, descartáveis, mas tenta manter a aparência do sedutor, do charmeur. Procura incansavelmente o poder e exerce-o de forma abusiva e violenta. Por vezes, estes adultos têm uma necessidade obsessiva, quase ridícula, de serem bajulados e enaltecidos. Quando tudo isto constitui um padrão recorrente de comportamentos, é evidente que estamos perante um estado de saúde que não é nem natural, nem normal. As patologias, de ordem psíquica, são evidentes e perfeitamente conhecidas.

Pessoas feridas, que se tornaram más e cruéis, provocam sofrimentos inimagináveis.

Sem qualquer escrutínio, relativo à sua saúde mental e personalidade, muitas destas pessoas, quando fazem parte de classes sociais altas, alcançam posições onde dispõem de imenso poder, em empresas, no Estado, em partidos políticos, em organizações religiosas e em governos. Em algumas organizações, de carácter político ou religioso, estas pessoas fazem tudo para conquistar a confiança das multidões, empobrecidas e frustradas. Prometem justiça, ajuda, proteção e bem-estar, a quem as apoiar. Promovem-se como se fossem os paladinos incansáveis da justiça e da paz. Dizem-se incorruptíveis, bons e sociais até que conseguem alcançar o poder absoluto e indiscutível.  

Não têm valores éticos, morais ou sociais.

Ontem, como hoje, à esquerda como à direita do espectro político, multiplicam-se as ditaduras ferozes e o fascismo tenebroso. O fascismo, de cariz religioso, ou político, é sempre racista, imperialista e almeja a imortalidade, o que soa incrivelmente ridículo. No entanto, … é mesmo assim. Detestam-se uns aos outros, mas protegem-se uns aos outros, pois, a liberdade e a democracia são o seu inimigo comum. No século passado, como no nosso século, centenas de milhões de pessoas foram enganadas e tantas outras perseguidas e assassinadas. Estas multidões viram goradas as suas aspirações de bem-estar, de liberdade e de justiça. Muitas centenas de milhões de pessoas são hoje escravos, impedidos de falar ou escrever livremente. Não há aqui uma nova realidade internacional. Há “apenas” muitos ditadores, inúmeras pessoas desumanizadas, depravadas e profundamente perturbadas que deveriam ter sido protegidas quando crianças, ajudadas quando jovens e quando adultas, consideradas inaptas para mandarem ou governarem, seja a que nível for, seja onde for.  

Os cidadãos e a sociedade civil têm de realizar um debate robusto sobre os valores (éticos, morais e sociais) que nos unem e que nos devem guiar. É preciso unir, convencer e persuadir.

O ex-Presidente Obama contrapõe ao circo e ao ridículo, à desumanidade e ao exercício cruel do poder, que hoje parecem querer dominar, robustecer as comunidades e as organizações cívicas locais. Propõe o ativismo cívico como forma de promover reformas sociais e políticas, e onde é possível criar respostas práticas e honestas aos problemas das pessoas e das famílias. 


© Sapo