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A guerra lá fora, a conta cá dentro

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A escalada da tensão entre o Irão, os Estados Unidos e Israel configura um choque geopolítico de elevada magnitude, com repercussões económicas globais que Portugal não pode ignorar. Numa economia aberta e periférica como a nossa, a ideia de que estamos “longe” do conflito é, em larga medida, ilusória. A crescente interligação dos mercados energéticos, financeiros e de bens assegura que os efeitos acabam sempre por chegar e tendem a fazê-lo com particular incidência sobre a inflação, as condições monetárias e o equilíbrio orçamental. Convém, por isso, não desvalorizar o momento. Senão, vejamos.

O primeiro e mais imediato canal de transmissão é o energético. O Médio Oriente continua a ser uma peça central no equilíbrio da oferta global de petróleo e gás, pelo que qualquer perturbação relevante, seja por constrangimentos logísticos, sanções ou simples agravamento do prémio de risco, traduz-se rapidamente numa subida dos preços internacionais. Portugal tem feito um percurso assinalável na incorporação de energias renováveis, o que constitui um ativo estratégico. No entanto, convém não alimentar ilusões: continuamos dependentes do exterior em segmentos críticos como os combustíveis fósseis, os quais sustentam os transportes e boa parte da nossa atividade produtiva. Como a teoria económica nos ensina (e a experiência recente veio confirmar), aumentos nos custos energéticos propagam-se ao longo de toda a cadeia de valor e, mais cedo ou mais tarde, acabam mesmo por chegar ao consumidor final. O que vimos após a invasão da Ucrânia foi precisamente isso: uma transmissão rápida e generalizada para os preços, com impacto desproporcionado sobre os agregados de menor rendimento. Não há razões para acreditar que desta vez será diferente.

Por outro lado, uma nova pressão inflacionista coloca inevitavelmente o Banco Central Europeu numa posição mais delicada. Depois de algum alívio nas taxas de juro, este novo contexto pode forçar uma abordagem mais contundente, leia-se restritiva. Tal tem consequências claras: crédito mais caro, investimento mais contido e menor rendimento disponível para as famílias. Num país estruturalmente endividado como Portugal, este não é um detalhe técnico: é um fator de risco macroeconómico relevante. A dimensão orçamental merece, igualmente, atenção redobrada. O Estado será pressionado a intervir para mitigar os efeitos da inflação, seja através de apoios às famílias, seja por via de medidas dirigidas às empresas mais expostas. O problema é que esta pressão surge num momento em que as finanças públicas já enfrentam exigências adicionais, nomeadamente associadas aos recentes eventos climáticos extremos, os quais implicam despesa pública significativa e inevitável. Assim, o espaço orçamental ainda existe, mas não é ilimitado, pelo que ignorar esta realidade será um erro de política económica.

Uma palavra final sobre o turismo, setor cada vez mais central da nossa economia. Em contextos de instabilidade geopolítica, Portugal pode beneficiar de um efeito de substituição, afirmando-se como destino seguro. O Algarve, em particular, poderá captar fluxos que evitam regiões mais expostas ao risco. Mas seria imprudente assumir que esse efeito será suficiente para compensar os impactos negativos. Desde logo, o aumento dos custos energéticos tende a refletir-se no preço das viagens, sobretudo aéreas, penalizando a procura, especialmente nos segmentos mais sensíveis ao preço. Acresce que uma eventual desaceleração económica nas principais economias emissoras, como a Alemanha, o Reino Unido ou França, poderá reduzir o rendimento disponível e, consequentemente, a propensão para consumir turismo. Para uma região como o Algarve, altamente especializada e dependente deste setor, esta combinação de fatores constitui um risco que não deve ser ignorado e que exige uma resposta estratégica clara.

Em síntese, o atual contexto internacional exige mais do que prudência: exige realismo. A combinação de choques externos, pressões inflacionistas e constrangimentos orçamentais coloca a política económica perante escolhas difíceis. Não há soluções fáceis, mas há erros evidentes e subestimar a dimensão destes riscos é um deles. Proteger os mais vulneráveis, preservar a estabilidade macroeconómica e reforçar a autonomia estratégica não são objetivos alternativos; são, hoje, imperativos simultâneos.

NOTA: Este artigo apenas expressa a opinião do seu autor, não representando a posição das entidades com as quais colabora.


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