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A armadilha da escalada

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30.03.2026

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A tentativa de atentado com bomba artesanal contra o Bank of America na madrugada de sábado no centro de Paris (o suspeito foi aliciado pelo Snapchat com 600€ para colocar o “bidon” incendiário capaz de causar dano através de incêndio) mostra que o terrorismo em palco europeu ou outro distante do Irão pode ser novidade na fase seguinte da retaliação do regime iraniano.

Há evidência de que Trump, pressionado nos EUA pela impopularidade desta guerra, tenta sair dela. O Irão mostra uma capacidade de resistência que custa a crer que não tenha sido ponderada pelos estrategos americanos. Israel não escapa a fendas na defesa anti-aérea e assim está a sofrer destruição de edifícios e já perdeu pelo menos 13 vidas.

O governo israelita em guerra intensa permanente desde 7 de outubro de 2023, com ataques primeiro sobre Gaza e a Cisjordânia, depois outra vez o Líbano e, agora, em modo de ataque devastador com ambição de mudança de regime, o Irão. O preço para os israelitas está a ser alto: o turismo, sobretudo em Jerusalem, fonte de relevante receita para o país, está vazio, com prejuízo para a indústria hoteleira e da restauração, também para muitos lojistas que fazem a vida a vender “souvenirs” nos lugares religiosos com história. A economia israelita está sob altíssima pressão que leva o governo ao recurso à subida de impostos. Mas a maioria dos israelitas continua a crer que esta guerra visa dar ao país supremacia regional e segurança. Parecem não se inquietar por este estado de guerra permanente ser o recurso de Netanyahu para sair ganhador das eleições de 27 de outubro próximo e assim continuar no poder e escapar aos julgamentos por corrupção.

Netanyahu precisa por isso de continuar ferozmente em guerra. O Irão, há muito a preparar-se para uma guerra assim, está a conseguir resistir e contra-atacar. Trump precisa de encontrar uma saída, embora Netanyahu tente convencê-lo para continuar a destruir os alicerces do regime iraniano.

As opções para o presidente dos EUA são limitadas: declarar o triunfo, como tem continuadamente feito, embora essa seja uma vitória fictícia; continuar a impopular escalada militar com ameaçadoras consequências eleitorais – a desaprovação da condução política de Trump está com 13 pontos negativos, os democratas suplantam os republicanos por seis pontos e meio; ou aceitar uma solução que mantenha no essencial intacto o regime da República Islâmica ainda que com compromissos para cedências iranianas.

As negociações político-diplomáticas, até agora, estão a ser um fantasma. A distância entre os negociadores dos EUA e do Irão é imensa.

O plano americano de 15 pontos exige o fim dos programas nucleares e de mísseis do Irão e a retirada do apoio às milícias pró-Irão, em troca do alívio das sanções. Já o Irão exige reparações de guerra, o reconhecimento do seu controlo sobre o Estreito de Ormuz e garantias contra futuros ataques, aspirando a tornar-se a potência hegemónica do Golfo.

Nenhuma das duas partes, EUA e Irão, pode retirar-se da guerra sem sofrer consequências graves, mas a continuidade do conflito enfraquece ambos.

O Irão está a retaliar sobre as várias petromonarquias do Golfo que têm bases militares dos EUA, está a fechar o estratégico Estreito de Ormuz e está a estrangular os mercados globais de energia e de fertilizantes, com todas as consequências que essa escassez implica.

Os Estados árabes do Golfo Pérsico estão alarmados: o Irão resiste, enfraquecido mas mais agressivo, e assumiu o controlo de facto do Estreito, com influência crítica sobre o mercado energético global.

A escalada em curso corre o risco de arrastar os países da região para um conflito com graves consequências, designadamente económicas.

A Casa Branca de Trump está, como sempre, hiperativa na guerra mediática de propaganda: é ofensiva verbal que sugere real dificuldade na gestão de um conflito que se revela mais complexo do que o esperado. A escalada da retórica bélica parece revelar que Washington está a tentar justificar ao eleitorado a necessidade do conflito para lidar com o seu impacto negativo na economia do país. Mas a opinião pública dos Estados Unidos, com exceção da fatia MAGA, mostra que não se deixa enganar pelos argumentos a favor da guerra.

A OCDE prevê inflação de 4,2% nos EUA neste 2026 (um aumento de 1,2% face a dezembro, o mais elevado entre os países industrializados) e um crescimento global de 2,9%, abrandando em relação a 2025. Para os Estados Unidos, o crescimento deverá situar-se nos 2% em 2026 e depois descer para os 1,7% em 2027.

Os estrategos em institutos de estudo militares estão a mostrar-se unânimes: se Washington quer mesmo reabrir o Estreito de Ormuz, só tem duas opções, ou negociar um acordo com o Irão ou mobilizar uma força militar maciça. Não há outra opção. Sabe-se que o Irão não é a Venezuela. O potencial custo de ocupar uma nação de 90 milhões de pessoas impediu todos os presidentes americanos dos últimos 47 anos de lançarem uma invasão ao Irão, e não faltaram motivos, sobretudo no tempo de Carter, com reféns americanos por 444 dias na embaixada dos EUA em Teerão assaltada por gente da revolução de Khomeini.

Trump, sempre exagerado e narcisista (já se atreveu a falar de estreito Trump em Ormuz) cultiva apresentar-se como “o maior presidente na história dos EUA”. Mas ele sabe que os eleitores não lhe perdoarão que muitos militares regressem aos Estados Unidos com o corpo dentro de uma urna.

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