Teodoro e as Casas dos Poetas
O Professor Teodoro Ramalho saiu cedo de casa. A bengala de madeira rosewood marcava o ritmo. O chapéu Fedora defendia-o discretamente do sol matinal. No bolso interior do casaco descansava um charuto Montecristo. A manhã subia lentamente por Alfama, pousando sobre os telhados uma luz antiga. As ruas estreitavam-se como velhas confidentes. A roupa estendida oscilava lentamente sobre a cabeça dos caminhantes. Das janelas descia o cheiro de café fresco. Um gato dormitava no beiral.
Lisboa tem esta singularidade: amanhece, mas nunca acorda completamente. Conserva sempre qualquer coisa de sonâmbula, como se as ruas demorassem mais tempo do que os homens a regressar à realidade.
Teodoro caminhava sem destino rigoroso. Nunca acreditara muito nos itinerários. As melhores cidades deixam-se descobrir ao ritmo dos sapatos e não das agendas.
Acabou por parar diante da Casa da Liberdade. Ali respirava-se Mário Cesariny. Sorvendo o ar. (ouça aqui)
Não o Cesariny das biografias, mas aquele que desconfiava profundamente da realidade quando esta se apresentava demasiado bem penteada. O Surrealismo nunca quis fugir do mundo. Quis apenas obrigar-nos a vê-lo melhor. Como quem limpa um vidro embaciado para descobrir que a paisagem sempre estivera do outro lado.
Teodoro levantou uma sobrancelha. Há escritores que explicam o mundo. Cesariny preferia desarrumá-lo. Ao sair, respirou demoradamente o ar de Alfama. Um elétrico martelava os trilhos. Uma mulher varria a soleira da porta. Os homens já bebiam um copo de três na tasca da esquina.
Foi então que lhe ocorreu Cesário Verde. O Lumiar ficava na outra ponta da cidade.........
