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Servir o País não se compra — exige-se com verdade

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11.05.2026

Havia uma máxima que se ensinava nas academias militares da nossa geração: "A história militar é para o oficial de Estado-maior o que o cadáver é para o estudante de Medicina." Aprende-se com os mortos para salvar os vivos. Estudavam-se guerras passadas para sobreviver às futuras.

Mas o mundo mudou de tal forma que essa equação já não fecha. As guerras de amanhã pouco se parecem com as de ontem, e as soluções que hoje se propõem para reforçar as nossas Forças Armadas parecem saídas, essas sim, de um manual desatualizado.

Há algo profundamente contraditório no que se passa no Parlamento: os mesmos políticos que há 20 anos, nas juventudes partidárias, militaram pelo fim do Serviço Militar Obrigatório são hoje os que mobilizam essas mesmas juventudes para um novo "desígnio patriótico." O mundo mudou. Eles, aparentemente, não. Oferecer uma carta de condução numa era em que os veículos serão brevemente autónomos tem o mesmo valor simbólico que distribuir cartas topográficas a tropas que já usam GPS, ou ensinar datilografia na era da Inteligência Artificial. O gesto é bonito, quase nostálgico, mas pertence ao catálogo do passado. E é um mau serviço à Nação, à República, às Forças Armadas e à juventude, desde logo porque não perceberam que o problema dos efetivos não é das Forças Armadas — é do País.

A questão do recrutamento não se coloca apenas em Portugal. Em todos os países da NATO, após a queda do Muro de Berlim, o desinvestimento nas Forças Armadas e a ilusão de uma paz perpétua conduziram ao mesmo resultado. O exemplo britânico é elucidativo: as Forças Armadas do Reino Unido, frequentemente apontadas como referência, contam hoje com 136.960 militares no ativo — em 1975 eram 338.000, uma redução de cerca de 60% em meio século. O efetivo operacional real, treinado e experiente, não andará........

© Sapo