Putin na panela de pressão?
As democracias ocidentais estáveis, a UE, o Reino Unido, o Japão, o Canadá, a Austrália, perderam na espuma dos tempos, a memória da revolução. Desde 1900 as suas rupturas resolvem-se em dias e quase sempre sem sangue: a queda dos coronéis na Grécia, o fim da ditadura salazarista em Portugal, a saída discreta da maioria dos regimes comunistas do Leste, e se bem me lembro só Ceaușescu morreu como morrem os tiranos nos livros. A Rússia nunca aprendeu essa gramática. Nunca teve uma democracia representativa e a sua história é a de tiranos que mandam e de um povo que obedece, com mais ou menos coacção.
O padrão russo é outro: a água ferve em silêncio, com vapor a escapar de vez em quando, até que alguém surge do nada e tudo explode sem aviso. Foi assim em 1905, quando o Czar, derrotado numa guerra, foi forçado a ceder. Foi assim em fevereiro de 1917, quando o colapso da moral nas trincheiras, soldados mal alimentados, atirados a ataques sem esperança contra posições alemãs, varreu o trono, e Nicolau II se enganou a pensar que se ia reformar tranquilamente em Inglaterra. Oito meses depois, com os alemães já cansados de negociar com um governo Provisório que insistia em continuar a guerra, deixaram Lenine atravessar a Europa num vagão selado até Petrogrado. Lenine derrubou o Governo Provisório à força de greves e violência revolucionária, terminou a guerra cedendo território, incluindo toda a Ucrânia, e abriu caminho a uma guerra civil brutal.
A URSS que se seguiu, entregue a Estaline pela morte súbita de Lenine, foi provavelmente o regime mais brutal que alguma vez governou um único país, mesmo os nazis, com todos os seus crimes, não conseguiram massacrar tanta gente. Chernobil marcou o início do fim; a perestroika já não bastava. Em agosto de 1991 os linha-dura tentaram um golpe para restaurar a ortodoxia comunista, sem apoio nem coragem, e apenas conseguiram fechar o caixão da URSS ao fugirem em fracasso miserável.
O povo russo, livre do que não queria, aceitou o que parecia melhor em Ieltsin, mas terminou o século dividido, falido e dominado pela violência dos oligarcas, pelo caos económico, pela fraqueza internacional, pelas guerras chechenas e por atentados que muito provavelmente tiveram a mão do próprio Estado. Foi então, talvez pela primeira vez, que os russos votaram de bom grado no homem que Ieltsin escolhera como sucessor: Vladimir Putin. Os oligarcas pensaram que era um deles e que o controlariam facilmente. Não era, e não conseguiram. Vinte e seis anos depois continua no poder, e hoje temem-no quase tanto como ele parece temer todos os que o rodeiam.
Putin perdeu o contacto com a realidade. As suas declarações das últimas semanas são evasivas, não respondem ao essencial e revelam um homem desligado do Putin de antes da guerra. A idade e a doença cobraram o seu preço. Sempre foi moderadamente paranoico, é ex-KGB/FSB, isso vem com o cargo, mas agora atingiu outro nível: as mesas de vinte metros durante a pandemia, os gabinetes idênticos para nunca revelar onde está, a recusa em usar telefone, computador ou correio eletrónico, e a proibição de........
