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Quando a tempestade passa, o risco permanece

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24.02.2026

Por Luís Teixeira, Risk & Broking Sales Leader, WTW Portugal

As recentes tempestades que atingiram Portugal expuseram fragilidades estruturais, mas também reforçaram uma evidência incontornável: num contexto de risco climático crescente, a resiliência não é opcional. É uma escolha estratégica que começa muito antes da próxima emergência.

As imagens das tempestades que recentemente assolaram Portugal permanecem vivas na memória coletiva: ruas transformadas em rios, infraestruturas severamente danificadas, famílias forçadas a abandonar as suas casas. Perante a dimensão dos impactos, voltou a destacar-se um traço estrutural da sociedade portuguesa: a solidariedade, acompanhada da mobilização de meios públicos e privados.

O Estado, as autarquias, os serviços de emergência, a sociedade civil e o setor segurador assumiram – e continuam a assumir – um papel determinante na mitigação dos danos e na recuperação das zonas afetadas. Ainda assim, é importante reconhecer que, numa fase inicial, a resposta revelou fragilidades, com atrasos no reconhecimento da gravidade da situação e na mobilização atempada de equipas no terreno.

Superada essa fase, as prioridades centraram-se rapidamente no socorro de emergência: apoiar as populações, repor infraestruturas críticas e reduzir os impactos na atividade económica. O Governo e as autoridades locais têm-se mobilizado para restabelecer serviços essenciais, enquanto a sociedade civil reforça os esforços de apoio direto às comunidades afetadas.

O papel do seguro na recuperação

Em paralelo, o setor segurador desempenha um papel crucial ao acelerar o pagamento de indemnizações, permitindo que famílias e empresas com cobertura adequada recuperem mais rapidamente parte das perdas e iniciem o processo de reconstrução. Esta capacidade de transferência de risco constitui um pilar essencial da resiliência económica, evitando que o choque financeiro decorrente de eventos extremos agrave ainda mais uma situação já marcada pela urgência e pela incerteza.

Os impactos mais visíveis destas tempestades recaíram sobretudo sobre os cidadãos e sobre as pequenas e médias empresas. No entanto, este momento deve também servir de alerta para as grandes organizações – não porque estejam imunes, mas precisamente porque têm uma responsabilidade acrescida e maior capacidade para liderar pelo exemplo na forma como se preparam para riscos cada vez mais sistémicos.

Depois da emergência, a pergunta essencial

Quando a água recua e os ventos cessam, impõe-se a pergunta fundamental: o que aprendemos? E, mais importante ainda, o que estamos verdadeiramente dispostos a mudar?

Ultrapassada a fase crítica da resposta imediata, é tempo de uma reflexão estratégica sobre a forma como gerimos o risco. Eventos extremos como os recentemente vividos expõem fragilidades estruturais, mas oferecem também uma oportunidade concreta para repensar a integração do risco na gestão do negócio e na tomada de decisão.

A principal lição não reside na ilusão de que os riscos podem ser totalmente eliminados – fenómenos severos continuarão inevitavelmente a ocorrer -, mas na evidência de que a antecipação e a mitigação proativa reduzem significativamente os impactos e aceleram a recuperação quando o inesperado acontece.

O risco climático já não é exceção

A verdade é que estes fenómenos deixaram de ser excecionais. Em 2025, as catástrofes naturais causaram mais de 100 mil milhões de dólares em perdas seguradas a nível global, pelo sexto ano consecutivo acima desse limiar (WTW, Natural Catastrophe Review, janeiro de 2026). E não foi necessário um único grande furacão para que esse valor fosse atingido.

O risco climático já não é uma ameaça distante: é uma realidade presente, estrutural e crescente. Um dos aspetos mais preocupantes é a subestimação de determinados riscos, como as cheias pluviais – resultantes de chuvas intensas que excedem a capacidade de drenagem urbana. Apesar do aumento da sua frequência e severidade, continuam muitas vezes ausentes dos mapas de risco oficiais.

Em países como o Reino Unido, 73% das habitações em risco de inundação estão expostas a este tipo de cheias. Em Portugal, os eventos recentes demonstraram que esta ameaça é bem real, com impacto direto em zonas urbanas e industriais.

Da formalidade à estratégia

Neste contexto, a gestão de risco não pode continuar a ser encarada como um custo inevitável ou uma formalidade administrativa. Deve assumir-se como um pilar estratégico da sustentabilidade e da competitividade empresarial. Num cenário marcado por eventos extremos cada vez mais frequentes, a capacidade de antecipar, mitigar e recuperar rapidamente será  uma verdadeira vantagem competitiva

Para as empresas, este caminho começa inevitavelmente por dentro. Rever e atualizar planos de continuidade de negócio, testar cenários de crise, identificar vulnerabilidades operacionais e logísticas e treinar equipas para responder a interrupções críticas não pode ser um exercício pontual. Deve fazer parte da rotina de gestão.

A experiência demonstra que a eficácia da resposta em contexto de crise depende diretamente do nível de preparação prévia. A pior altura para improvisar é, invariavelmente, no meio da crise.

Continuidade de negócio e seguros: duas faces da mesma moeda

A revisão dos planos de continuidade de negócio assume, por isso, particular relevância. Mais do que documentos formais, estes planos devem traduzir-se em processos práticos, adaptados à realidade específica de cada organização e incorporando lições aprendidas com incidentes anteriores.

Paralelamente, é fundamental reavaliar os programas de seguros, garantindo que as coberturas refletem a exposição real da empresa. Eventos recentes podem ter exposto limites inadequados, exclusões inesperadas ou capitais segurados insuficientes para cenários de perda severa.

Um diálogo estruturado entre empresas, seguradoras e brokers permite alinhar coberturas com a exposição efetiva e explorar oportunidades de melhoria. Organizações que demonstram controlo ativo do risco tendem a beneficiar de condições mais equilibradas de transferência de risco, como custos de seguros e franquias mais reduzidosInvestir hoje para resistir amanhã

Outra vertente incontornável é o investimento em engenharia de risco e medidas de mitigação física. Mesmo infraestruturas existentes podem ser alvo de melhorias que reduzem significativamente a exposição a catástrofes naturais, aumentando a capacidade de resistência durante o evento e reduzindo o tempo de paragem após a ocorrência.

Para novos projetos, a oportunidade é ainda maior. Integrar critérios de resiliência desde a fase de planeamento é mais eficaz e significativamente mais económico do que adaptações tardias. Infraestruturas concebidas com base em princípios de gestão de risco são mais robustas, mais seguras e mais atrativas para seguradoras e financiadores.

Resiliência como indicador de boa governação

Num contexto em que os riscos climáticos são cada vez mais escrutinados, a resiliência tornou-se também um indicador de boa governação. Empresas que demonstram uma abordagem estruturada à gestão de risco beneficiam de maior confiança do mercadoe maior atratividade junto de investidores.

As tempestades que atingiram Portugal são mais do que um episódio pontual: são um alerta. Não podemos controlar o clima, mas podemos controlar o nível da nossa preparação. A gestão de risco não é apenas uma resposta ao que já aconteceu; é uma escolha estratégica sobre como queremos enfrentar o futuro.

Integrar a gestão de risco como pilar estratégico, informada por dados, orientada pela ciência e assumida ao mais alto nível da liderança, é o caminho para prosperar num mundo em mudança – mesmo depois de a tempestade passar.


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