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O choque global: Como o conflito no Médio Oriente pode desencadear uma crise económica e reconfigurar o futuro da Europa

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A continuidade das hostilidades no Médio Oriente, envolvendo três players como os Estados Unidos da América, Israel e Irão, está a ser um verdadeiro choque não só geopolítico, mas um fenómeno de proporções económicas incalculáveis para a economia e a disrupção social do mundo. Os diversos documentos e análises de diversas instituições internacionais, mercados energéticos e relatórios económicos, apontam para uma conclusão que até o menos especialista e com bom senso concluirá; o prolongamento deste conflito está a reconfigurar as cadeias de valor globais e a pressionar a inflação e a alterar as perspetivas de crescimento mundial. E muitos se questionam sobre o verdadeiro motivo deste conflito, que terá diversas dimensões não só económicas e geopolíticas mas de manutenção do statu quo. Sem dúvida que, após a covid, esta foi a maior disrupção mundial com proporções, únicas onde muitas fragilidades da Europa vieram à tona. 

No centro desta dinâmica está o Estreito de Ormuz, onde cerca de 20% do petróleo e gás natural liquefeito mundial transita. A sua disrupção, mesmo parcial tem efeitos imediatos nos mercados energéticos. Desde o início do conflito, os preços do petróleo subiram mais de 25% e chegaram a ultrapassar ao dia de hoje mais de 110 dólares por barril, enquanto os preços do gás na Europa registaram aumentos e colocam as reservas estratégicas em pressão mediante a continuidade do conflito. Estes números não são apenas indicadores de volatilidade, são o ponto de partida para uma cadeia de efeitos económicos que iremos sentir ao longo dos meses até 2027, tendo em consideração a destruição de áreas estratégicas de produção dos emirados onde dizem os especialistas que pode demorar anos a reconstruir na sua totalidade.

A nível económico a dura realidade é a inflação e os impactos económicos na sociedade e a sua mensuração, segundo dados da OCDE indica que o conflito está a alterar significativamente todas as previsões macroeconómicas globais, a inflação média nas economias do G20 deverá atingir cerca de 4%, acima das previsões anteriores de 2,8%. Nos Estados Unidos, a inflação poderá subir para 4,2%, enquanto o crescimento global pode desacelerar de 3,2% para cerca de 2,6% num cenário de prolongamento do conflito. Este efeito é consistente com estimativas do Fundo Monetário Internacional, segundo as quais cada aumento de 10% no preço do petróleo acrescenta cerca de 0,4 pontos percentuais à inflação global e reduz o crescimento em 0,2 pontos percentuais tornando a vida da população novamente mais cara e com revisões 3/6/12 meses nas prestações ao banco, este conflito poderá ser um dos maiores choques globais de décadas tendo em consideração a covid-19.   

Na Europa, o impacto é particularmente sensível: a subida dos preços energéticos já levou o Banco Central Europeu a considerar ajustes na política monetária face a um novo choque inflacionista. Ao mesmo tempo, economias como o Reino Unido viram as suas previsões de crescimento reduzidas para apenas 0,7% em 2026 o que pode influenciar pelo espectro económico o turismo nacional, mas também ter a oportunidade de sermos um destino relativamente seguro e o nosso principal mercado emissor de turismo aumentar em Portugal (UK), ainda é prematuro, mas veremos a dinâmica dos próximos meses, tudo indica ser uma oportunidade, mas com enormes condicionantes a montante e a jusante.

As cadeias de valor e o seu impacto além da energia é enorme. Tudo o que consumimos tem base no petróleo e o impacto será setorial, profundo e crescente a nível mundial; a disrupção logística no Golfo Pérsico, com navios parados, rotas desviadas e prémios de seguro mais elevados ou mesmo cancelados caso arrisquem atravessar os estreito de Ormuz, está a aumentar os custos de transporte e a atrasar entregas. Assim como a nível europeu já se antecipa aumentos na grande distribuição, dependendo do prolongamento deste conflito. Este fenómeno reflete uma mudança estrutural que observamos, as cadeias de valor estão a abandonar o modelo de eficiência máxima para adotar estratégias defensivas, com mais stock, mais redundância e maior diversificação, e pós-conflito o mundo na sua distribuição energética não será o mesmo. O resultado é uma economia global menos eficiente e mais cara. O aumento dos custos energéticos e logísticos não é absorvido integralmente pelas empresas, é transferido para os consumidores, alimentando um ciclo inflacionista.

Um dos riscos de que pouco falamos nos media nacionais em Portugal é um risco de estagflação a médio prazo, tendo como base um crescimento baixo aliado a um aumento da inflação e caso o preço do brent atinja os 150$ US por barril podemos estar numa recessão económica e preocupante, tendo já dado o alerta o CEO de um dos maiores fundos do mundo. Além disso, a persistência do conflito acelera uma tendência de fragmentação económica, países e empresas procuram reduzir a dependência de pontos críticos como o Estreito de Ormuz, investindo em diversificação de fornecedores, relocalização industrial, rotas comerciais alternativas, mas sempre mais caras e a possibilidade de transição energética estando já na mesa o aumento da energia nuclear de nova geração. Mas estas medidas de curto prazo e médio prazo tem efeitos imediatos: a economia torna-se menos eficiente e mais cara. E a questão que colocamos é, até que nível as famílias europeias e portuguesas estão dispostas a pagar mais no seu cabaz mensal? Índices de pobreza podem aumentar e ter um elemento disruptivo enorme.

No que concerne a Portugal e um dos nossos principais setores, o turismo, poderá existir oportunidades neste contexto adverso no Médio Oriente. Portugal apresenta uma dualidade estratégica. Por um lado, sofre os efeitos indiretos inflação energética, aumento de custos e menor crescimento europeu. Por outro, pode beneficiar de uma reconfiguração dos fluxos turísticos globais e beneficiar para posicionar a Marca Portugal no mundo.

A instabilidade no Médio Oriente tem impacto direto na perceção de segurança dos destinos turísticos. Regiões próximas de zonas de conflito estão a perder atratividade, levando a um redireccionamento da procura para destinos de proximidade e seguros. Portugal, com uma imagem consolidada de segurança, pode captar parte significativa desses fluxos seja nos EUA, como nos mercados de proximidade europeus. Contudo, este “dividendo geopolítico” não é garantido nem permanente. A inflação global pode reduzir o rendimento disponível dos turistas, especialmente na Europa, limitando a procura.

Em suma, estamos perante um cenário económico global mais caro e menos previsível, os dados e as dinâmicas são cristalinas como a água do mar do Algarve, o prolongamento deste conflito no médio oriente está a transformar um choque energético conjuntural num novo mapeamento económico global onde a energia será mais cara, as cadeias de valor menos eficientes e o aumento da inflação são realidades quantificáveis no bolso de cada família europeia. Mas para a velha Europa o desafio é gigantesco e estrutural, porque teremos de reduzir dependências e reforçar a nossa resiliência económica, militar e energética.

Nos últimos meses com a nova administração na Casa Branca nos EUA, a Europa, como dizemos em bom português, “terá de acordar para a vida” e reindustrializar setores estratégicos e unificar a teoria com a prática, porque esta instabilidade já tem um preço e está a ser pago por todos e o futuro é mais cinzento que colorido.

NOTA: Este artigo apenas expressa a opinião do seu autor, não representando a posição das entidades com as quais colabora.


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