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“Regar” é aumentar o nível de riqueza e bem-estar de cada português

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24.03.2026

Na comunicação anterior (aqui) identificou-se o regadio como uma tecnologia capaz de contribuir para diminuir o preocupante défice agro-alimentar de Portugal (ronda os 7.000.000.000,00€! em 2025) devido a, em média, permitir aumentar 6x a produção agrícola por hectare.

Face a tão elevados ganhos de produtividade há, de facto, que procurar respostas para as razões que contribuem para que a adoção e expansão do regadio não mereçam ainda total unanimidade em Portugal.

Nesta linha, na comunicação anterior, já se tentou esclarecer que a falta de água não é um argumento válido para limitar o regadio em Portugal. É que, em Portugal, num ano, chove mais do que em Espanha, na Suécia, na Polónia ou no Canadá. E, para além disso, Portugal anualmente “apenas” utiliza 9% das suas disponibilidades hídricas o que corresponde a menos de 30% da sua capacidade de armazenagem.

Em sequência, neste texto, pretende-se discutir e desmontar outros dois argumentos ou perceções comuns (errados) “anti-regadio”:

Que a área de regadio em Portugal já tem aumentado significativamente nos últimos anos (nomeadamente com o Alqueva).

Que o aumento da área de regadio é necessariamente precedido de consideráveis investimentos públicos.

No gráfico seguinte apresenta-se a evolução da superfície irrigável (área infraestruturada para se poder regar) em Portugal entre 1989 e 2023:

De forma sucinta, em 1989 a área irrigável em Portugal situava-se quase em 900.000ha enquanto que neste momento não atinge os 650.000ha. É uma diminuição de mais de 25% em pouco mais de 30 anos.

Referir também que Portugal tem uma superfície agrícola de, números redondos, 4 milhões de hectares pelo que a fração dessa área que é potencialmente regada é de “apenas” 16% (650.000ha / 4.000.000ha).

Tendo em conta os dados passados e face à percentagem atual de área agrícola irrigável pensa-se que não restam dúvidas que há margem para expansão.

Ora as obras de expansão do regadio remetem para a segunda perceção incorreta relacionada com a associação frequente que infraestruturações de novo regadio só podem ser realizadas através de avultados investimentos do Estado.

Para esclarecimento deste equívoco, no gráfico seguinte, apresenta-se a distribuição das várias tipologias de titularidade de regadio e a sua relevância na área total irrigável em Portugal no ano 2019:

Conforme se pode verificar apenas 42% da área irrigável o é a partir de regadios públicos; 58% é regadio privado.

Alertar que com este raciocínio não se pretende menosprezar o investimento em regadios públicos. Interessa é esclarecer e vincar que essa não é a única via nem sequer a atualmente maioritária.

Assim, para contribuir para expandir o regadio, é importante não só que se realizem investimentos públicos quando realmente pertinentes mas também que se criem condições — nomeadamente ao nível da simplificação administrativa e burocrática — que confiram segurança e previsibilidade a investimentos privados.

Será um dos caminhos que se terá de trilhar para diminuir o preocupante défice agro-alimentar nacional.

Mas não é só o défice agro-alimentar que justifica a expansão do regadio.

É que aumentar a produção agrícola nacional também contribui para elevar o PIB português. Basta para isso pensar que, por definição simplificada, o PIB é calculado pela soma do valor de todos os bens e serviços finais produzidos anualmente num país. Pelo que mais bens agro-alimentares produzidos tenderão a elevar o PIB.

Como consequência, o regadio ao elevar o PIB nacional logicamente também eleva o PIB per capita (PIB / nº de habitantes).

Ora o PIB per capita é um dos indicadores mais utilizados para medir o nível de bem-estar e riqueza de cada habitante de um país.

A conclusão torna-se então óbvia e por isso serve também como título deste texto ---> “Regar” é aumentar o nível de riqueza e bem-estar de cada português.

Licenciado e mestrado em Engenharia Agronómica pelo Instituto Superior de Agronomia, Afonso Bulhão Martins tem uma Pós-Graduação em Gestão na Nova SBE e um Programa de Especialização em Engenharia e Gestão pelo Instituto Superior Técnico. Sócio-gerente de exploração agrícola familiar no Alandroal (Alentejo), é diretor da Associação de Beneficiários do Lucefecit e administrador da CERSUL - Agrupamento de Produtores de Cereais do Sul.

As Crónicas Rurais incidem sobre temas relacionados com o mundo rural, com uma periodicidade semanal. São asseguradas por um grupo de autores relacionados com o setor, que incluem Afonso Bulhão Martins, Cristina Nobre Soares, Daniel Montes, Filipe Corrêa Figueira, Marisa Costa, Pedro Miguel Santos e Susana Brígido e Tomás Roquette Tenreiro.


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