Depois das urnas, o Brasil ainda está aqui
No domingo, 4 de outubro, 158.765.543 brasileiros estarão aptos a votar. Se a eleição presidencial exigir novo turno, a votação será em 25 de outubro. São números do calendário; o que permanecerá depois deles pertence ao caráter de uma sociedade obrigada a continuar convivendo consigo mesma.
Já vi partidos nascerem cercados de esperança, chegar ao poder, perder eleições, trocar de discurso e sobreviver aos próprios fundadores. Governantes apresentados como indispensáveis deixaram a cena, enquanto o país seguiu em frente. Essa convivência com a vida pública ensinou-me a desconfiar das certezas que pedem adesão antes de oferecer argumentos.
Conhecer dezenas de países ampliou essa perspectiva. Fronteiras organizam Estados, culturas guardam memórias e povos defendem interesses legítimos. Nada disso altera o valor essencial de uma vida humana. Uma criança nascida em Brasília tem a mesma dignidade de outra nascida em Gaza, Pequim ou numa aldeia africana. É nessa medida que me reconheço brasileiro e cidadão do mundo.
Meu apartidarismo nasce dessa liberdade de consciência. Posso reconhecer uma boa política pública sem comprar o governo inteiro, condenar um abuso sem transformar seus autores em monstros, concordar hoje com quem critiquei ontem. A consciência se apequena quando precisa consultar uma sigla antes de formular cada julgamento.
A democracia adoece quando o princípio muda conforme o personagem. A mentira indigna quando parte do outro campo e recebe desconto quando beneficia o nosso. Uma arbitrariedade provoca revolta ou aplauso segundo a identidade de quem foi atingido. Nesse ponto, a régua já foi adulterada.
Nossa história deveria nos tornar mais........
