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Lula, Acadêmicos de Niterói e as flores em vida na Apoteose do Samba

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19.02.2026

Acadêmicos de Niterói homenageou Lula com enredo na abertura dos desfiles do grupo especial do Rio, celebrando seus 80 anos e trajetória.

A homenagem a Lula gerou reações diversas, com críticas e apoio, e foi comparada a outras homenagens a políticos em carnavais passados.

A escola de samba destacou a importância da homenagem em vida e a resistência do samba como expressão da cultura e história do povo marginalizado.

Acadêmicos de Niterói foi rebaixada após o desfile, o que foi interpretado como uma tentativa de silenciar o samba e a periferia.

Em 1985, Carlinhos Vergueiro, Cristina Buarque e Mauro Duarte juntaram um seleto grupo de sambistas para gravar Flores em Vida, disco em homenagem à obra transcendental de Nelson Antônio da Silva, o Nelson Cavaquinho, que se despediria dessa existência em 18 de fevereiro de 1986, em uma triste Quarta-Feira de Cinzas no Morro da Mangueira, que vencera o Carnaval daquele ano com enredo em homenagem a outro grande nome da música, Dorival Caymmi.

Paulinho da Viola à canção Quando eu Me Chamar Saudade, de onde foi extraído o verso que deu nome ao disco. Nela, o sambista mangueirense fala da importância de se homenagear as pessoas quando ainda estão nesse plano.

“Me dê as flores em vida / O carinho, a mão amiga / Para aliviar meus ais / Depois que eu me chamar saudade / Não preciso de vaidade / Quero preces e nada mais”, dizem os versos. googletag.cmd.push(function() {googletag.display('entreparrafos3');});

“Me dê as flores em vida / O carinho, a mão amiga / Para aliviar meus ais / Depois que eu me chamar saudade / Não preciso de vaidade / Quero preces e nada mais”, dizem os versos.

Aos 80 anos, encerrando seu terceiro mandato presidencial, o retirante nordestino Luiz Inácio Lula da Silva recebeu flores em vida como enredo da Acadêmicos de Niterói na abertura dos desfiles do grupo especial do Rio na Apoteose do Samba.

Lula como enredo, no ano em que busca seu quarto mandato presidencial, foi escondido desavergonhadamente pela Globo, do clã Marinho, e gerou gritos e ranger de dentes dos doutrinados pelo neofascismo enlatado nas redes sociais. Mesmo que haja precedentes históricos de homenagens a políticos vivos, como Leonel Brizola pela Império Serrano em 1992, Anthony Garotinho pela Unidos da Tijuca em 2002 (um ano antes do então governador fluminense disputar a Presidência), Eduardo Paes pela mesa Unidos da Tijuca em 2012; e até mesmo Paulo Maluf pela Rosas de Ouro, no Carnaval paulista de 1993.

Se formos contar festas populares, podemos até citar Jair Bolsonaro (PL) na apoteose sertaneja da Festa de Barretos em 2022 – tramada meticulosamente para gerar impacto eleitoral.

No entanto, o pavor provocado há décadas pela figura de Lula na mídia liberal, que foi amplificado recentemente por aqueles que vestiram a fantasia do fascismo com a ascensão de Bolsonaro e a ultradireita, não encontra eco na visão de grande parcela da população marginalizada do país sobre o presidente – especialmente aqueles que sentiram a transformação em suas vidas a partir das políticas sociais de seus três mandatos presidenciais.

Samba, alegria e resistência

Vale lembrar que o samba e as escolas de samba são fruto de um dos maiores movimentos de resistência social pela arte conhecidos em todo o mundo.

Com raízes nas rodas em torno da senzala, onde o povo negro escravizado o sagrado e o profano ajudavam a curar as dores da alma, o samba foi duramente perseguido desde seu princípio, quando imperava no país um projeto de branquização da população com a importância de mão de obra europeia após a exploração escravista do trabalho de africanos.

Dos encontros na casa de Tia Ciata e nos terreiros nos morros do Rio de Janeiro foi fomentada a ideia de que essa cultura ancestral vindo da África e dos sons de seus tambores deveria ser propagada para as gerações seguintes nas escolas que ensinavam o samba.

E são essas escolas que até hoje levam para a avenida os verdadeiros heróis da nação, como João Cândido, o almirante negro homenageado pela Grande Rio em 2024; Esperança Garcia, mulher escravizada que escreveu carta denunciando maus-tratos em 1770, na Salgueiro em 2019; o advogado autodidata negro Luiz Gama na Mangueira em 2019; Chica Manicongo, primeira travesti documentada que nasceu no Congo e foi assassinada no Brasil no século XVI, enredo da Paraíso do Tiuiti em 2023; ou mesmo Mestre Ciça, um simpático senhor, mestre de bateria, que virou enredo e levou o título para Viradouro neste ano.

Se não fosse por Dona Lindu, emocionantemente interpretada por Dira Paes na Sapucaí, o menino que brincava com a árvore de Mulungu, típica do agreste nordestino, seria mais um brasileiro a ser esquecido, subjugado por uma burguesia que sempre busca levar ao poder aqueles que representam seus interesses. Assim como seriam João Cândido, Esperança Garcia, Luiz Gama, Chica Manicongo e Mestre Ciça.

“Revolucionário é saber escolher os seus heróis”, como diz o samba-enredo contando a história do presidente.

“Revolucionário é saber escolher os seus heróis”, como diz o samba-enredo contando a história do presidente.

Com o golpista Michel Temer e o Bozo, que dispensa apresentações, a Acadêmicos de Niterói levou a história que o povo brasileiro conhece em sua comissão de frente – escondida pela Globo e sua narrativa que alimentou o golpismo e o neofascismo no Brasil.

Assim como a resistência histórica dos povos marginalizados é lembrada em sambas e enredos memoráveis pelos alunos das escolas que se insurgiram contra o projeto de branquização, a Acadêmicos de Niterói escreveu na História a versão do povo sobre o que aconteceu na política e, especialmente com Lula, nos últimos anos.

Comemorada por hipócritas que detestam o Carnaval pelas suas origens e também pela alegria libertadora que leva ao povo brasileiro, o rebaixamento da Acadêmicos de Niterói é apenas mais uma tentativa vã de tentar calar o samba, a periferia e sua resistência.

“A arte não é para os covardes”, escreveu a corajosa escola de Niterói após a apuração. Ou como poetizaram seus compositores no samba-enredo que fez tremer a Sapucaí, aos 80 anos, Lula “vale uma nação, vale um grande enredo”. Flores em vida ao menino luz de Garanhuns.


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