Peregrinos na berma do asfalto
Estamos novamente no tempo do ano em que os noticiários televisivos regressam às imagens de Fátima. As câmaras acompanham os grupos organizados, os rostos cansados, os pés macerados, as promessas murmuradas em voz baixa. Mas, sobretudo, detêm-se nos peregrinos das bermas do asfalto. É aí, na estreita faixa entre o perigo e a perseverança, que a narrativa mediática encontra o seu símbolo mais eficaz: homens e mulheres caminhando durante dias, muitas vezes em silêncio, ocupando, na marcha solitária e solidária, a fronteira de um território pensado para automóveis e velocidade. Em Portugal, talvez nenhum outro ritual coletivo consiga ainda produzir esta conjugação entre vulnerabilidade física e espiritual, visibilidade pública e reconhecimento social.
A peregrinação a Fátima permanece um dos fenómenos religiosos capazes de suspender a ideia, frequentemente repetida, de que a religião (quase) desapareceu da cena pública. Não porque a sociedade portuguesa tenha regressado a um modelo de uniformidade católica, mas porque Fátima continua a funcionar nesse cruzamento complexo entre a manutenção de uma reserva simbólica da memória coletiva portuguesa e a vivência de um sagrado materno protetor moldável à escala dos quotidianos. Mesmo para muitos que se........
