A sociedade entra em campo
“Também no desporto de altíssima competição a tecnologia não falta, mas escasseia, aqui e além, o estar-com-os-outros, em direção à comunhão mais profunda que o Desporto exige e supõe” (Manuel Sérgio).
Anuncia-se o termo de mais um megaevento global: o Campeonato do Mundo da FIFA. Não, não é sobre Cristiano Ronaldo que escrevo. É, em primeiro plano, sobre os que estão fora do campo, mas dentro do estádio. O futebol costuma ser tratado a partir de duas perspetivas igualmente redutoras. Para uns, não passa de um entretenimento de massas, um intervalo lúdico entre as coisas que importam na vida. Para outros, constitui uma espécie de religião popular e secular, destinada a preencher o vazio deixado pelo declínio das crenças tradicionais. Nenhuma destas interpretações parece suficiente.
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Em 2023, o saudoso Manuel Sérgio, filósofo do desporto, viu publicada a 4.ª edição do livro “Filosofia do Futebol”. Manuel Sérgio lê o futebol como um fenómeno humano total, em que se condensam corpo, afetos, ética, transcendência e estruturas de poder, e não apenas como uma técnica de jogo ou um espetáculo. Na sua perspetiva, o futebol torna se um espelho das promessas e contradições da sociedade moderna – da mercadorização à busca de superação, solidariedade e sentido. O objeto da sua filosofia do futebol não é a jogada em abstrato, mas o ser humano em movimento, com emoções, intenções, histórias e contextos sociais que se tornam visíveis na forma como joga. Na sua ótica, o jogo é uma microssociedade em que se articulam indivíduos, instituições, media, dinheiro e imaginário coletivo. Assim, o futebol, na sua filosofia, revela-se um laboratório de modernidade: nele se dramatizam, de forma concentrada, as tensões entre mercado e dignidade, entre espetáculo e educação, entre violência e ética, entre individualismo e transcendência solidária.
De facto, há muito tempo que as ciências sociais........
