Crónica: Debita nostra CCLXXXII
Crónica: Debita nostra CCLXXXII
Luís Costa - 19/03/2026 - 9:01
“Bastará então que um grupo defina a sua identidade como vítima de opressão para que este se junte à já longa lista dos dominados. (…) Esta potencial abertura a todas as correntes contestatárias será evidentemente uma grande sorte para certos marxistas, felizes por poderem renovar as suas preocupações de justiça social no interior de um enquadramento renovado.” (Jean-François Braunstein, 2023, “A Religião Woke”, pp. 134-135). Podem sempre discutir-se as vias por onde há de passar a mudança social, tendo em conta que o ritmo a que esta hoje se processa tornou insustentáveis quaisquer ilusões sobre o estaticismo das sociedades. Em particular as que resultavam de se viver toda uma vida sem que se pudesse detetar, a “olho nu”, a menor alteração nas suas mais evidentes características. Pode ainda assumir-se uma especial preferência por mudanças fraturantes, ou por aquelas que se desenvolvem, paulatinamente, à cadência de uma geral aceitação. Ou questionar-se mesmo a respetiva eficácia na consecução de objetivos tão estruturantes, como o de uma maior equidade social. Pode até privilegiar-se, ou destacar-se, o protagonismo de alguns grupos ou classes sociais nos mais relevantes processos de mudança e, em conformidade, estimular-se a sua oportuna ou decisiva intervenção. O que se não pode é pretender deixá-lo ao cuidado de quem ‘já foi’, ou apenas perdura em fidelizadas memórias, fruto dos ‘irrefreáveis ditames’ da própria mudança. E, sobretudo, persistir em restringi-lo aos seus dispersos ou desabilitados herdeiros, de modo a ‘passivizar’ (ignorar, menosprezar, iludir) o (des)empenho de outros não menos interessados agentes de tão disputável processo. Talvez por isso se tenha vindo, mais recentemente, a adensar uma nova militância em torno das muito diversas e nem sempre confluentes causas de outros tantos grupos sociais. Em geral minorias identitárias, enquanto vítimas de uma ou outra forma de discriminação pelo atual “mainstream” social. O tema não será novo e, muito menos, questionável à luz dos princípios e objetivos das sociedades democráticas; mas nem por isso menos interpelante no que se refere à perspetiva de mudança social que frequentemente que lhe subjaz. Ou seja, quanto a saber se tal perspetiva (wokismo) se não veio a converter, ela própria, numa adaptação de outras não menos arreigadas convicções sobre os determinantes trâmites por que haverá de passar a mudança das sociedades. Mais concretamente, se o impulsionado alinhamento (“interseccionalidade”) de “todas as correntes contestatárias”, no rol “da já longa lista dos dominados” cuja identidade se defina como “vítima de opressão”, não veio colmatar o vazio aqui deixado pelos anteriores indigitados protagonistas. Perfilando-as, apesar dos atritos interseccionais, na frente comum de um elegido combate pela atual mudança social. Uma questão que ao puxar para o terreiro da conflitualidade as formações identitárias, na sua particular consistência, reinterpela a própria mudança social e ganhou todas as condições para se tornar politicamente ‘vi(t)(r)al’.
