Democracia: Ainda Vamos a tempo
Democracia: Ainda Vamos a tempo
Fernando Manuel Raposo - 26/03/2026 - 9:03
As últimas eleições legislativas (maio de 2025), foram demasiado penalizantes para o partido socialista.
A derrota fora dolorosa e humilhante, levando o secretário geral do PS a demitir-se naquela noite. Elegera apenas 58 deputados, menos dois que o Chega, embora em votos expressos tenha tido maior número (PS: 22,83 % - 1.442.194 votos e Chega: 22,76 % -1.437.881 votos ).
Ao contrário de algumas opiniões no espaço público, Pedro Nuno Santos, por teimosia ou falta de sensatez, ou ambas as coisas, insistiu em rejeitar a moção de confiança apresentada por Montenegro.
O resultado foi o que se sabe e sobre ele muito já se escreveu.
Independentemente das causas que precipitaram as eleições, a AD e Montenegro, viram a sua maioria, ainda que relativa, reforçada e o Chega, inesperadamente, instala-se no Parlamento como líder da oposição, ficando assim à frente do PS.
O Parlamento ficou agora mais fragmentado, quebrando-se a hegemonia do PS e do PSD.
Já há muitos anos que o PS não era confrontado com um resultado tão baixo.
Só em 1985, o PS se viu confrontado com uma derrota tão acentuada, nas eleições legislativas de outubro, com Almeida Santos à cabeça, obtendo apenas 20,8% dos votos expressos, elegendo 57 deputados. Perdera 40 deputados em relação às eleições de 1983.
Face ao desagrado de grande parte do eleitorado, o PRD, inspirado pelo Presidente da República Ramalho Eanes, afirma-se como a terceira força política, elegendo 45 deputado (18% dos votos).
Recorde-se que Mário Soares, líder do PS e primeiro-ministro apresentara, na altura, a demissão na sequência da rutura do bloco central (PS e PSD).
Cavaco Silva ganhara a presidência do PSD, poucos meses antes, no célebre congresso da Figueira da Foz. Crítico da coligação do Bloco Central, depressa rompeu com ela, precipitando, então, o país para eleições.
A coligação entre PS e PSD, foi “sol de pouca dura”. Resistira apenas dois anos.
Dizia-se, à época, que Cavaco Silva teria ido à Figueira “fazer a rodagem” do seu novo Citroen, que trocara pelo seu velhinho BMW.
Cavaco Silva, tornar-se-ia, assim, primeiro-ministro, embora com maioria relativa
Regressando a 2025, o PS é confrontado com uma segunda derrota, agora não tão acentuada, vendo o PSD ganhar a maioria dos municípios do país (135), entre os quais se destacam, Lisboa, Porto, Sintra, Braga, entre outros. Valeram-lhe as vitórias em Coimbra e Viseu, para levantar um pouco a moral.
O PS ganhara 128 câmaras, verificando-se uma perda de 20 municípios relativamente às autárquicas de 2021, em que obtivera 148. Já o PSD viu aumentar, significativamente, o número de câmaras. Em 2021 obtivera apenas 72, embora em coligação com o CDS tivesse obtido mais 31.
Ao contrário do que ocorrera nas legislativas anteriores, o Chega obtivera apenas 3 municípios, ficando muito aquém das suas expectativas.
Apesar de tudo, a maioria dos eleitores continua a situar-se entre a social democracia e o socialismo democrático, rejeitando os extremismos, sejam eles de esquerda ou de direita.
A perda de eleitores no partido socialista, obrigaria, em meu entender, a uma reflexão profunda, no sentido de identificar as causas da sua erosão.
Não só não foi feita, como algumas personalidades com responsabilidades acrescidas no partido, se esgrimiram na praça pública, com argumentos pouco dignificantes sobre o candidato presidencial, à época, da sua família política, e hoje Presidente da República.
O PS, ainda que timidamente, tardou em declarar o apoio a António José Seguro, embora, na minha opinião, o devesse ter feito desde a primeira hora.
A 2ª volta das eleições presidenciais de 2026, a 28 de fevereiro, foi inequívoca. Votos contados, com Seguro a ganhar com 66,83% (3.505.846 votos) contra André Ventura com 33,17% (1.739.745 votos). Seguro ganhara em todos os concelhos do continente, à exceção de Elvas (Portalegre) e em todos os das ilhas, à exceção do concelho de S. Vicente (Madeira)
Com refere o Notícias ao Minuto, “Seguro foi eleito Chefe do Estado com o maior número de votos expressos em 50 anos de democracia...” (https://www.noticiasaominuto.com/politica).
Nunca uma vitória para a eleição do Presidente da República fora tão expressiva, o que confere a Seguro uma legitimidade reforçada.
O mérito fora apenas seu. Pela sua lucidez, pela sua serenidade e sentido de responsabilidade e, sobretudo, pela sua capacidade de promover consensos.
Como disse Marcelo Rebelo de Sousa “ "Vai ser um grande Presidente, grande, grande, e deve contar com o apoio de todos os portugueses".
Ele representa uma nova esperança para os portugueses.
A vitória de Seguro é a expressão de que a maioria dos eleitores continua a situar-se ao centro do espectro político nacional, rejeitando os extremismos.
Contudo, não se pode ignorar que uma parte significativa do eleitorado se sente “magoado” e descontente com o rumo do país ao longo dos últimos anos.
Pese embora o resultado de André Ventura, estou em crer que muitos dos que nele votaram não anseiam por um regresso ao passado. Admito que uma parte, por razões ideológicos, se sinta saudoso dos tempos de Salazar, mas, certamente, a maioria talvez tenha visto em Ventura a forma de exprimir a sua revolta. E muitos deles são, creio bem, gente simples, com dificuldades, que acreditou, ao longo do tempo que levamos de democracia, que da esquerda à direita lhes proporcionassem melhor qualidade de vida e em que a igualdade de oportunidades, o direito à justiça e à saúde, entre muitas outras, não fossem letra morta.
Apesar das inúmeras conquistas obtidas depois de abril, e passados tantos anos, a nossa democracia é ainda muito imperfeita.
O PS e o PSD, e também o CDS, têm tido muitas responsabilidades, porque não souberam, ou não quiseram, promover os consensos necessários para resolverem os problemas de que o país padece. E são muitos….
Contudo, os problemas e as dificuldades do país, são sentidas de forma mais intensa e incisiva por aqueles que mais precisam.
Se as dificuldades que temos vindo a viver podem ter algum efeito positivo é o de, pelo menos, contribuir para uma maior consciencialização de todos sobre a necessidade imperiosa de implementar as reformas necessárias de modo a garantir maior qualidade de vida a todos os portugueses, sem exceção.
Importa, pois, repensar o país em todos os sectores e dimensões da vida em sociedade.
Não tem havido uma cultura de compromisso, de partilha, de consenso e de humildade. Por tacticismo, ou por oportunismo político, tem-se governado o país com se de um “baile mandado” se tratasse: “Ora agora mando eu, ora agora mandas tu”.
Face à incondicional disponibilidade do atual Presidente da República para servir o país e sendo António José Seguro um homem de compromissos, o governo de Montenegro tem todas as condições para implementar as medidas que se julgam imperiosas, se quiser e souber promover os consensos necessários.
Para isso, importa saber interpretar a vontade da grande maioria dos eleitores, que, julgo eu, se situa no centro do espectro político português e cujo voto foi capitalizado pelo PSD e pelo PS, nas últimas eleições autárquicas e agora, pelo Presidente da República.
Montenegro conta ainda com o compromisso responsável do secretário geral do PS, José Luís Carneiro, cujos princípios e valores com que pauta o seu posicionamento político é, de certo modo, convergente com o do Presidente da República.
Saibam Montenegro e a AD escolher o parceiro certo, porque só assim será possível combater os extremismos.
Daí que ainda estejamos a tempo.
