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Cata-Ventos: A mulher de César

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Cata-Ventos: A mulher de César

Costa Alves - 02/04/2026 - 9:02

Ai mulher César, mulher de César! Passam a vida a olhar para as saias do seu parecer e nada sabem acerca do que é; da essência do que é. Nem pelo seu próprio nome a dão: mulher de César, ponto final. Nem o nome Pompeia os comove. Nem a coincidência com o nome da cidade que o Vesúvio irá arruinar, cento e tal anos depois. Quando forem a Pompeia, só haverá turismo para sélfi ver. Sim, chama-se Pompeia e também foi devastada.

Confesso que estou farto de ver usarem o exemplo da mulher de César para nos dar lições de moral, sobretudo moral política. De tanto citarem o seu parecer, promovem a casca, o papel de embrulho, a superfícialidade e, assim, criam perceções da realidade que não têm como método atingir. É a sugestão mais insistente nos dias que correm: parecer. E, com o parecer, geram as perceções muito em voga. Quando o parecer mente, e mente muito, estragamos vida.

César exigia que Pompeia fosse culpada de não parecer o que é e, daí, o pedido de divórcio. Ela insistia: ser é o que importa na integridade do ser. Ser ou não ser, eis a questão, dirá Shakespeare. Perdeu contra o seu poderoso marido, mas ganhou a consideração de quem defende a autenticidade do ser. A questão continua na vida quotidiana de todos nós e, sobretudo, no comportamento público de quem propaga a exigência da aparência contra a virtude da verdade. Para César e o seu tribunal, o ser é encoberto e, até, rechaçado pelo parecer.

A condenação da mulher de César é um recurso muito em voga nos púlpitos da televisiva retórica política. Como se tivessem autoridade para o fazer, proclamam a eito, como se fosse um ditado, que a mulher de César não basta ser; tem de parecer. Assim julgaram também os seus algozes. Não conseguiram provar a sua infidelidade e refugiaram-se na mentira do que parece.

A propósito de César, seja ele Kaiser, Csar, Trump, Netanyahu, Putin, ou qualquer outro que por aí se atravesse para mandar e guerrear, é bom termos na devida consideração os privilégios que qualquer César detém. O máximo é conhecidíssimo: “A César o que é de César, a Deus o que é de Deus”. Ou seja, César está dispensado de respeitar e cumprir os mandamentos sacralizados. Em guerra, pode ordenar arrasar cidades, património histórico, praticar genocídio, assassinar cirurgicamente ou com inteligência (dita) artificial. Nem a justiça de cá nem a da lei divina o condenará. Por via deste decreto, os césares e os subcésares deste mundo estão como querem: sobrevoando, como se fossem inocentes, os seus escombros de eleição. A César o que é de César, pois claro, e ele faz o que está na ditatorial gana dos seus interesses. Agitando as suas (aparentes) devoções religiosas, realiza o contrário.

Resta-me um último celebrado ditame extraído, por simpatia, dos anteriores: “À Política o que é da Política, à Justiça o que é da Justiça”. É que nem uma nem outra parte da equação se presta. São conhecidas as largas, profundas e antigas maleitas da Política e da Justiça. Neste caso, estão em posições divergentes. A Política não legisla nem cuida de melhorar a Justiça, mas a Justiça é, como sabemos, politicamente interferente e injustamente pachorrenta.

Já tenho o corpo coberto de penas e acrescento mais uma: o que fazemos da posteridade de Pompeia, enquanto mulher de César. A seu modo, António Aleixo tinha a resposta na ponta da língua. Direta e forte, sem papas nem engulhos sobre o parecer em que nos afogam: “Dizem que pareço um ladrão/ mas há pessoas que eu conheço/ que sem parecer o que são/ são aquilo que eu pareço.”


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