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O deslocamento cultural e a reconstrução do laço social na experiência migratória

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05.03.2026

Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.

A migração pode ser compreendida não apenas como experiência de perda ou desenraizamento, mas como um projeto subjetivo possível, quando sustentado por uma escolha plausível, interessada e simbolicamente elaborável. Um projeto migratório bem-sucedido não se define pela ausência de conflitos, mas pela capacidade do sujeito de reconhecer as perdas implicadas, negociar suas identificações e se implicar ativamente na construção de novos laços.

Quando esse movimento se apoia em alguma forma de reconhecimento mútuo — entre aquele que chega e a cultura que o recebe —, o deslocamento deixa de ser vivido apenas como ruptura e passa a operar como intercâmbio cultural vivo. Escolher partir pode, assim, tornar-se uma forma de reinvenção subjetiva, na qual o sujeito não apenas se adapta ao novo contexto, mas se inscreve nele de maneira singular e mais autoral diante da própria história.

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A experiência migratória costuma ser acompanhada por sentimentos de estranhamento, perda de referências e dificuldade de pertencimento. Do ponto de vista psicanalítico, esses efeitos não se explicam apenas pelas condições externas do deslocamento, mas dizem respeito a perdas simbólicas profundas: a língua, os códigos culturais, os lugares sociais e as identificações que sustentavam a experiência do sujeito.

Freud oferece um ponto de partida decisivo para essa leitura ao pensar tais perdas a partir do trabalho de luto. Em Luto e Melancolia (1917), ele descreve o luto como o processo psíquico necessário para que o sujeito possa se separar de um objeto perdido e, a partir disso, tornar possíveis novos investimentos. No caso da migração, quando esse trabalho pode se realizar, a dor da perda não desaparece, mas deixa de paralisar o sujeito, abrindo espaço para novas formas de ligação e para uma relação menos dependente das identificações anteriores.

Essa mesma tensão entre sujeito e cultura aparece em O Mal-Estar na Civilização (1930), quando Freud mostra que toda inserção cultural implica renúncias e conflitos, intensificados quando o sujeito se vê diante de um novo conjunto de normas, ideais e expectativas.

A contribuição de Lacan permite avançar nessa compreensão ao destacar que o sujeito só se constitui no interior de um campo simbólico compartilhado, especialmente através da língua. Ao migrar, o sujeito se confronta com a fragilização dos significantes que antes organizavam sua experiência e davam consistência à sua imagem de si. Essa perda produz desorientação e angústia, mas também pode operar como um corte nas identificações imaginárias que sustentavam o eu.

Em O Seminário, Livro 7 — A Ética da Psicanálise (1959–60), Lacan aponta que o desejo só se sustenta a partir de determinadas coordenadas simbólicas; quando essas coordenadas vacilam, o sujeito é convocado a se reposicionar frente ao próprio desejo. Já em O Seminário, Livro 20 — Mais, Ainda (1972–73), ao introduzir a noção de lalangue, Lacan mostra como a língua marca o corpo e o modo de gozar, o que ajuda a compreender por que muitos migrantes relatam sentir-se “outros” ao falar uma nova língua. Nesse sentido, a migração torna visível algo que já estava em jogo: a estrangeirismo estrutural do sujeito em relação a si mesmo.

Maria Rita Kehl contribui para essa discussão ao situar o deslocamento do sujeito no contexto mais amplo do mal-estar contemporâneo. Em O tempo e o Cão (2009), a autora descreve estados de esvaziamento subjetivo como efeitos da perda de pertencimento simbólico e da dificuldade de sustentar um lugar no laço social. A migração pode intensificar essa experiência ao suspender narrativas que antes organizavam a vida do sujeito e lhe conferiam reconhecimento.

No entanto, Kehl também aponta que o colapso dessas narrativas pode abrir espaço para processos de desidentificação, nos quais o sujeito se desprende de papéis e expectativas que operavam de modo silenciosamente normativo. Em Deslocamentos do Feminino (2008), a autora sugere que o deslocamento, embora desestabilizador, pode favorecer formas inéditas de reinvenção subjetiva, desde que não seja vivido como falha individual, mas como experiência a ser simbolizada.

Essa perspectiva encontra ressonância nas formulações de Christian Dunker, que pensa o sofrimento a partir da relação do sujeito com o discurso social. Em Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma (2015), Dunker diferencia o sofrimento difuso daquilo que se constitui como sintoma, destacando que o primeiro surge quando o sujeito não encontra um lugar reconhecido de enunciação. A migração frequentemente produz esse tipo de desencaixe, pois o sujeito deixa de ocupar posições discursivas familiares sem que novas estejam imediatamente disponíveis.

Ainda assim, Dunker sublinha que esse vazio não é apenas fonte de exclusão, mas também condição para a criação de novos modos de dizer, de se endereçar ao Outro e de construir laços sociais singulares (Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica, 2011). O deslocamento pode, assim, funcionar como um intervalo fértil, no qual novas formas de pertencimento se tornam possíveis.


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