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A moda como gesto de fronteira

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Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.

A emigração costuma ser discutida em números: quantos saem, para onde vão, que documentos precisam, que impacto produzem nas estruturas do país que os recebe. Fala-se da pressão sobre os serviços públicos, da capacidade da rede de saúde, das escolas, do mercado de trabalho. Tudo isso é real e necessário.

Mas, raramente, se observa que a chegada de novos sujeitos não apenas exige adaptações — ela também impulsiona melhorias, amplia serviços, provoca revisões e contribui para o desenvolvimento social. Há, contudo, dimensões do partir que não cabem nas estatísticas.

Quem emigra aprende novas leis, novos trajetos urbanos, outras formas de convivência. E aprende, também, a ser visto de maneira diferente, ao mesmo tempo em que participa da transformação do espaço que o acolhe.

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A forma de vestir é uma das primeiras experiências concretas desse deslocamento. O que, no país de origem, era espontâneo, passa a ser interpretado. O que era cotidiano pode parecer excesso. O corpo torna-se fronteira simbólica. Ele carrega a marca de onde se veio — antes mesmo que a fala revele o sotaque.

O psicanalista Christian Dunker, a partir de uma leitura lacaniana, propõe que a moda participa da política do olhar nas sociedades contemporâneas. Vestir-se é organizar a própria aparição no campo do Outro. Não se trata apenas de escolher roupas, mas de manejar reconhecimento — decidir como se quer aparecer e como se deseja ser lido. Para quem emigra, essa operação é ainda mais delicada. Não é apenas uma questão de estilo; é uma questão de pertencimento.

Essa reflexão encontra eco em Carl Gustav Jung, para quem a roupa pode funcionar como persona: uma máscara psíquica que media o encontro entre o mundo interior e as exigências sociais. Ao sair do país de origem, o sujeito precisa recalibrar essa máscara — ajustar a imagem sem perder consistência interna, preservar traços sem se tornar caricatura.

Nesse processo de ajuste, a roupa revela-se como o que John Malkovich define em Fashion Neurosis: um auto-retrato construído, um depósito de memórias e identidades que projetamos no mundo. Para o emigrante, essa "neurose" de vestir torna-se uma tecnologia do sujeito, um instrumento de inserção simbólica em outro território que regula o que se mostra e o que se oculta. Mostrar demais pode reforçar estereótipos; mostrar de menos pode significar apagamento.

É nesse ponto que a trajetória do Alessandro Radlof, fundador da marca AR Lisboa, situada no bairro da Estrela, ganha relevância. Ao estabelecer-se em Lisboa, Radlof não transportou apenas uma biografia, mas um repertório sensível. Sua proposta estética opera entre o conter e o expressar. Respeita a informalidade e a liberdade do gesto, traços associados à experiência brasileira do corpo, e organiza essa liberdade em cortes atemporais e silhuetas limpas. Há rigor na construção e economia nas formas.

As paletas de cores tendem à sobriedade. Não há fantasia tropical. E, no entanto, algo vibra. Em certas listras, em discretos trabalhos manuais, em texturas que interrompem a neutralidade, percebe-se uma memória de origem. Não como espetáculo, mas como presença. Entre a formalidade europeia e a liberdade brasileira, estabelece-se um equilíbrio. O que se vê ali é a experiência emigrante em ato: nem imposição identitária, nem dissolução no ambiente. A roupa converte memória em forma e deslocamento em estilo.

A partir do pensamento de Dunker, podemos compreender como se desloca a posição no campo do olhar. O emigrante, frequentemente reduzido à condição de estrangeiro visível, torna-se propositor de visibilidade. Ao criar, amplia o espaço simbólico para outros que também partiram. Pela via junguiana, essa moda oferece uma persona ajustada ao "entre-lugar": permite existir em Portugal sem apagar o Brasil, e evocar o Brasil sem transformá-lo em estereótipo.

Portugal, hoje atravessado por múltiplas presenças — brasileiras, africanas, asiáticas, europeias — vive uma negociação constante de códigos culturais. Cada comunidade traz seus modos de apresentar o corpo e administrar o desejo. Nesse contexto, a moda revela sua função estrutural: torna-se dispositivo de inscrição social. Um modo de ocupar o espaço comum sem abdicar da própria origem. No corpo vestido, condensam-se memória, adaptação e invenção.

A emigração não desloca apenas pessoas; desloca sensibilidades. Seu impacto não está somente na economia ou na demografia, mas na forma como uma sociedade aprende a olhar — e a reconhecer — novas presenças. Quando o emigrante cria e se afirma, ele não pede autorização para pertencer. Ele participa da construção desse pertencimento.


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