menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

O colégio que ensina a desigualdade com cantinas dos ricos e dos pobres

19 0
16.03.2026

Se te dissessem que em Portugal existe um colégio privado onde na cantina há dois tipos de comida acreditarias? Talvez sim, até porque algumas crianças poderiam ter restrições alimentares. Mas e se te dissessem que há de facto dois tipos de comida: um tipo de alimentação destina-se aos meninos ricos e outro menos saudável e rico destina-se os meninos pobres?

Se te parecer improvável, então convém avisar: acontece mesmo. Não é num romance distópico nem numa caricatura ideológica. É em Portugal. No colégio dos Salesianos de Manique, em Cascais. A explicação apresentada é, aliás, de uma franqueza quase desarmante.

Há alunos que pagam mensalidade e há outros que frequentam o estabelecimento ao abrigo de contratos de associação com o Ministério da Educação, criados para suprir a insuficiência da rede pública. Segundo responsáveis do colégio, a diferença explica-se porque o Estado paga cerca de 1,46 euros por refeição para os alunos subsidiados (valor que, dizem, não permite servir refeições iguais às dos restantes).

O argumento pode até ter uma lógica contabilística mas o problema é que a educação não é contabilidade nem economia. Uma escola pode discutir orçamentos, pode contestar o financiamento público, pode exigir melhores condições ao Estado. O que uma escola não pode fazer é transformar essas contas num mecanismo de separação entre crianças. Porque uma cantina não é apenas um espaço onde se come. É um lugar de convivência, de socialização, de aprendizagem silenciosa sobre aquilo que somos enquanto comunidade. É também ali que os alunos aprendem, muitas vezes sem que ninguém lhes explique, o que significa igualdade.

Quando uma escola aceita que uns alunos comam numa sala e outros noutra não está apenas a organizar refeições. Está a ensinar uma lição. E é uma lição profundamente errada: a de que o lugar de cada um à mesa depende do dinheiro que os pais têm na carteira.

Há quem tente reduzir tudo isto a uma questão de financiamento. Mas não é. É uma questão de princípios. Se o valor pago pelo Estado é insuficiente, então discuta-se o financiamento. Se os contratos de associação são mal desenhados, então reforme-se o modelo. Se o sistema cria dificuldades, então pressione-se o poder político. O que não é aceitável é resolver um problema administrativo criando um problema moral.

Separá-las à mesa é mais do que uma má decisão. É um retrato. E talvez o retrato mais cruel de todos: o de uma sociedade que já nem cora quando ensina, logo na infância, que há lugares diferentes à mesa para ricos e para pobres.

A educação que praticam não se mede apenas pelo rigor académico ou pela disciplina imposta, mas pela humanidade que ensinam. E, neste caso, falharam. Falharam com cada criança que vê o seu lugar definido pelo peso da carteira dos pais. Falharam com a própria essência de uma escola: formar cidadãos e não imprimir a desigualdade.

Não há orçamento que justifique uma lição de segregação. Não há estatística que substitua a ética, e não há reputação que sobreviva a uma memória infantil marcada por paredes invisíveis entre mesas.

Se acreditam que esta decisão será esquecida, enganem-se. As crianças lembram-se. E quando elas se tornarem adultos, saberão exactamente onde, como e porquê a desigualdade se fez presente à mesa. Uma lição que nenhum valor pago pelo Estado poderá apagar.


© PÚBLICO