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O artista deixou de perceber sua potência

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07.09.2026

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Hoje, quando tudo parece exigir posicionamento público, duvidar e se inquietar parece proibitivo. Duvidar do quê? De tudo. Das ideias. Das certezas. Inquieto, o artista pode ser alguém incontrolável e provocar na cultura uma dimensão mais complexa de seu funcionamento do que aquela direcionada por ideologias. Quem é dono da arte? O que cabe à arte? Já escrevi por aqui, algumas vezes, sobre a construção artificial de uma guerra cultural alardeada a todo momento pelos conservadores contra o wokismo, esse termo que, aos poucos, deixou de ser um manifesto para ser uma pretensa ofensa.

Entretanto, é preciso assumir o campo progressista ter alguma responsabilidade quando, dia a dia, fortalece e valida a existência de tal guerra ao defender a arte pertencer exclusivamente ao seu espectro e, para além dela, as manifestações culturais em geral. Quem dera isso fosse verdadeiro; estaríamos mais seguros das manipulações com as quais os extremistas moldam e deformam os comportamentos, as imaginações, os medos e as paixões.

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Pensar não existir arte conservadora é um erro ingênuo, até mesmo tolo. Há exemplos na arquitetura, nas artes visuais, na literatura, no cinema, no teatro. E, por mais assustadoras que pareçam, algumas manifestações são realizadas por artistas com importância histórica irrefutável. Se há arte progressista, há arte conservadora. Se há uma cultura de esquerda, há uma cultura de direita. Mesmo que isso não seja verdadeiramente equivalente.

Ao invés de se dizer o campo da direita “ser contra a cultura” — e mesmo eu, por vezes, o faço —, talvez devamos ajustar a frase para “contra um certo tipo de cultura”. Mas ora, isso se faz vice-versa, não? A diferença, portanto, não deve ser tratada meramente como uma distinção entre quem ou o que se expressa na arte, mas sobre qual visão de mundo se apoia para justificar seus conceitos. Obviamente, uma arte progressista conflitua os princípios conservadores de nacionalismo exacerbado e xenofóbico, religiosidade extremista, neoliberalismo meritocrático e moralismo radical.

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