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O mundo cabe num romance

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Tenho certeza absoluta de que se pode contar o mundo a partir dos livros. Não me refiro às biografias, nem aos retratos didáticos que a história oficial nos oferece: cronologias ajustadas, datas que contam o passado como uma linha reta. Me refiro a outra coisa: à pura e simples literatura, essa que não promete explicar nada e, por isso mesmo, explica quase tudo.

Há uma diferença essencial entre o livro que informa e o livro que revela. O primeiro nos dá fatos; o segundo nos dá a textura do que os fatos não necessariamente conseguem dizer. Foi lendo Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior, que compreendi melhor a violência silenciosa da estrutura fundiária brasileira do que em qualquer manual de história agrária.

O autor não escreve sobre o Brasil rural: ele o encarna através de Bibiana e Belonísia, duas irmãs cuja voz e silêncio carregam séculos de exclusão que nenhuma estatística consegue traduzir com a mesma exatidão emocional.

O mesmo acontece em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Ali não se narra o sertão mineiro como cenário, nem os jagunços como curiosidade regional. Riobaldo, ao contar sua própria vida a um interlocutor silencioso, refaz o Brasil inteiro na travessia de um homem entre o bem e o mal, entre o amor e o medo daquilo que sente por Diadorim.

Nenhum tratado sobre o coronelismo ou a formação do interior brasileiro me ensinou tanto sobre a ambiguidade moral que sustenta esse país quanto aquela linguagem inventada, quase um novo idioma, que Rosa criou para dizer o........

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