Todas as palavras da nossa língua
Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.
A Clarice Lispector, em uma de suas crônicas, comenta os limites da língua portuguesa, a sensação de faltarem palavras. Como chamar àquele sentimento de receber um presente de que não se gosta de uma pessoa a que amamos? “Gratidão” não dá conta, explica ela. Eu, cúmplice desse raciocínio, sinto que dizer que o mundo me abisma de tal modo que as palavras que conheço não traduzem totalmente as minhas experiências do cotidiano nestes tempos em que vivo.
A questão emergiu hoje de manhã, ao café, enquanto conversava com uma querida amiga, a Alice. Dizia-lhe que sinto-me fazendo o bem quando trabalho, mas que é um bem muito diferente daquele que sinto quando, por exemplo, dou uns trocados a um morador de rua ou a uma associação de caridade. Isto é, talvez porque eu trabalhe com educação. Atualmente, estou em um projeto junto a uma fundação educacional pública de reorganização pedagógica. O objetivo é instaurar metodologias mais efetivas na prática dos educadores. Um projeto que tem tanto de árido como de instigante.
Falava para a Alice que começamos a ver os primeiros resultados, resultados tímidos ainda, mas que me faz sentir bem. Sinto-me bem quando vejo as coisas começando a andar, quando vejo que o esforço começa a colher frutos. Mas cabe aqui dizer que estou fazendo o bem? Afinal, eu recebo um pagamento pelo que faço e o bom êxito dos esforços certamente não é algo que dependa apenas de mim. Aliás, talvez dependa mais de outros membros da equipe que se esforçam mais do que eu.
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É o bem o que habita esse meu sentimento. Essa sensação de autorrealização que, contudo, não se esgota nessa palavra, afinal o que é? Como chamo àquilo que faço, pelo qual sou pago, mas que me faz sentir agindo de acordo com o ideal pelo qual vivo? Aqui penso na Clarice e na incompletude das palavras. Sim, mas algo faço que ultrapassa os limites de minha obrigação e algo que me recompensa com esta sensação que não consigo nominar. Há outros momentos.
Nas redes sociais assisto a um vídeo de um brasileiro destratando, no ônibus, a um indiano. Há uns dias, assisti a outro vídeo em que um português era xenófobo com um brasileiro, também em um ônibus. Que nome tem aquilo que senti? Era uma mistura de raiva com desencantamento, a sensação de sentir-me profundamente fracassado como ser humano, ao mesmo tempo que me sentia com vontade e, mais do que nunca, ser o mais autêntico que consigo. Sim, era um oposto do que descrevi antes. Um oposto porque não acredito em opostos perfeitos. O contrário do bem nem sempre é o mal. Por vezes, pode ser a apatia. E não me sinto apático quando vejo a injustiça, então ainda fico feliz, não feliz, satisfeito ou algo assim.
Alice me responde que essas dúvidas são excelentes. Fazem-nos ser pessoas melhores. Ela, na bondade que a caracteriza, diz que há algo no doar-se naquilo que se faz que define o bem. E que muitas vezes, o fazemos sem nos darmos conta disso, mas que quando paramos para pensar, então algo avança dentro de nós. Mas quando uma pessoa é grosseira com alguém mais vulnerável, seja em qualquer parte do mundo, é algo que retiramos do outro e de nós mesmos. É um furto. Roubamos a dignidade desse outro e de nós mesmos. Há muitos roubos cotidianos ocorrendo no Brasil e em Portugal e pelo mundo afora. Furtos não de objetos, mas de algo mais precioso, rouba-se a humanidade.
Há racismo em Portugal. Nem poderia ser de outro modo porque a história da escravização ganha todo um capítulo na história ocidental com a reinvenção portuguesa: levar pessoas contra a sua vontade para as terras além do Atlântico, objetificando-as. Essa reinvenção tornou-se aprendizagem no Brasil. Aprendeu-se aqui – e muito bem – a ver o outro como um objeto por ser diferente. O racismo, a xenofobia, o machismo são todos – quando em língua portuguesa – irmanados pela história da escravização. Então, essas palavras ganham uma tonalidade diferente que as deforma ainda mais. São e não são aquilo que dizem ser.
E as negamos. Essa necessidade de negarmos que somos uma sociedade racista, xenófoba e machista que nome tem? É uma espécie de negação de quem não se consegue olhar no espelho da história. É um dos contrários do bem, a negação. Disfarço ser o que sou, acreditando de fato que esse disfarce é a minha realidade. Esse sentimento, tão sincero quanto falso, que faz uma pessoa ser grosseira (já estou prevendo os comentários negativos de alguns leitores!), que nome tem? Não gosto dessa palavra que sequer sei se existe.
Hoje faz sol em São Paulo. Amo finais de semana com sol. Voltando devagar do café, vejo uma criança de mãos dadas com a sua mãe. Por algum motivo qualquer, ela dá uma risada escandalosa que me faz bem. Essa esperança de que a humanidade vai dar certo é, ao mesmo tempo, nesse momento, ao som da risada, uma plena certeza. Não sei se esses nomes estão adequados, se eles traduzem de fato todos esses sentimentos. Aí vem-me à cabeça Fernando Pessoa, “o que em mim sente, está pensando”. Como é bom fazer parte desse coletivo internacional cuja língua é a mesma de Fernando Pessoa que traduz em um verso aquilo que eu sinto e para o qual preciso de muitas palavras.
Essa é a briga de todos os dias, de todos nós, compreendermo-nos na língua que temos, “inculta e bela” como diz o poeta, outro, no caso, o Olavo Bilac. Compreendermo-nos como falantes de português, dos dois lados do Atlântico, que semeamos misérias no mundo, mas também poesia, esperança e o sorriso de uma criança.
