Redefinir o absurdo
Durante muito tempo, o absurdo serviu como alarme. Quando um político dizia algo inacreditável, a sociedade reagia: havia indignação, debate, consequências. Hoje, muitas vezes, o absurdo já nem nos interrompe. Passa no ecrã como ruído de fundo. Encolhemos os ombros, fazemos scroll e seguimos.
Isto não aconteceu por acaso. E não é apenas “o mundo que “está louco”. Há método aqui. A política disruptiva deixou de ser improviso e passou a ser técnica, com quase um manual, passo a passo. E, nos últimos anos, ganhou um aliado poderoso: os algoritmos.
O primeiro passo é a provocação. Não é a proposta, nem a solução, nem a ideia bem pensada. É a frase para incendiar. A acusação feita para ferir. A piada para humilhar. O objectivo não é esclarecer: é gerar reacção. A indignação tornou-se combustível.
O segundo passo é inundar o espaço público. A polémica entra nas redes, salta para os noticiários, vira comentário, contracomentário, debate, fact-check, “memes”. E, no meio do barulho, o essencial perde-se. Nem sequer importa se a frase era falsa ou absurda, importa que dominou a conversa.
Depois vem o terceiro passo: trocar a realidade pela narrativa. A........
