Como se faz um genocídio
Um genocídio não começa com uma arma. Começa com uma palavra.
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Começa no recreio da escola quando um puto chama "cigano" a outro como se fosse insulto. Começa quando a avó diz "não te juntes com aqueles" sem explicar porquê. Começa quando o jornal da noite mostra um campo de refugiados durante trinta segundos entre o futebol e a meteorologia e tu mudas de canal sem perceber que acabaste de treinar o teu cérebro a não sentir.
Gregory Stanton, fundador do grupo Genocide Watch, dedicou décadas a estudar o que aconteceu no Ruanda, no Cambodja, na Bósnia, no Holocausto. E encontrou um padrão. Não são explosões de loucura. Segundo Stanton, são processos. Com dez fases. Que se repetem. Sempre. E a primeira é a mais simples de todas: dividir o mundo em nós e eles. Tu fazes isto todos os dias e nem dás conta. Ninguém dá.
A segunda é dar-lhes uma marca. Não precisa de ser uma estrela amarela. No Ruanda eram os cartões de identidade com "Tutsi" ou "Hutu." Em Portugal é "sexo: M" no documento de uma mulher que toda a gente vê que é mulher. A marca não precisa de ser visível. Basta que reapareça sempre que lhe exigem que prove quem é.
A terceira é tirar-lhes direitos. Aos poucos. Uma lei aqui. Uma revogação ali. Um guia escolar retirado. Tu não notas porque não te afecta. Nunca afecta toda a gente ao mesmo tempo. Se afectasse, seria........
