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O Inominado na Biblioteca: Tronco

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“Pensa pouco na tua carne: sangue, ossos e uma pele; uma bela peça de trabalho tricotada e torcida, constituída por nervos, veias e artérias; não penses mais do que isso”
Marco Aurélio, Meditações

Podemos viver sem braços e pernas, até de cabeça perdida — quem se junta a mim nesta confissão? — ou mesmo sem consciência de a ter, mas nunca conseguiremos viver sem o tronco e os órgãos vitais que alberga. Coração, pulmões, fígado, estômago, rins, cérebro, intestinos e pâncreas. O tronco humano, baú da vida, é o motor da nossa existência física.

No mural inominado há cinco troncos humanos tridimensionais em madeira. “A madeira é, por excelência, a matéria. Na Índia, é um símbolo da substância universal, da matéria-prima. Na Grécia, a palavra hylé, que tem o mesmo sentido de matéria-prima, designa literalmente a madeira. Na China, a madeira é também, dos cinco elementos, aquele que corresponde ao Este e à Primavera, bem como ao trigrama tch'en: o abalo da manifestação e da natureza. A vegetação surge da terra, da mesma forma que o trovão, que nela se mantinha escondido: é o despertar do yang e o início da sua ascensão”, revela-nos o Dicionário dos Símbolos. No topo do mural, sobre um fundo dourado, contrastante com o castanho mais escuro da madeira na face inferior do mural, lê-se, em letras verdes, Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco. Abaixo da designação, figuras humanas nuas e carecas flutuam entre as cores.

O dicionário refere “o despertar do yang e o início da sua ascensão”. O yin está implícito. Yin e yang só existem em relação um ao outro; são inseparáveis. O ritmo do mundo é o próprio ritmo da sua alternância. O carácter do yin exprime a presença das nuvens, o tempo encoberto; yang designa o sol elevado acima do horizonte. Uma encosta sombria e a costa soalheira de um vale: “o aspecto obscuro e o luminoso das coisas; o terrestre e o celeste; o negativo e o positivo; o feminino e o masculino. Evolução e involução”. Recordo a perceção de dor que retive anteriormente dos movimentos e da expressão das esculturas, entendida como “a dor do entendimento de nós próprios, da transformação, do crescimento, com avanços e retrocessos, cambalhotas e quedas, voos e........

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