O Coração Ainda Bate. Nos sapatos dos outros
Vivo numa avenida que tem árvores, onde se passeia a pé e de bicicleta. Onde os carros abrandam e os aviões se fazem notar. Quem não é daqui pode estranhar o movimento contínuo dos grandes pássaros metálicos. Eu só me lembro deles na hora em que vou gravar e o barulho, que varia com a chuva, entra forte nos meus registos.
O meu bairro também é o meu bairro preferido. É uma sorte a possibilidade e a vontade coincidirem. Eu ainda não morava aqui e já pensava nesta avenida larga, que depois se abre em ruas pequenas como se fossem braços. Casas iguais, tamanhos iguais. Pequenos quintais cercam os prédios, trazendo o campo até à cidade. Há limões, dióspiros, laranjas; aqui no quintal também há alecrim, flores selvagens e jarros. É uma sorte viver aqui, mas, como em todos os lugares, o pior da mão humana não se esconde.
Depreendo que a maior parte das pessoas que aqui vive tem dinheiro. São cada vez menos os proprietários de origem, o que quer dizer que muita gente nova foi chegando ao bairro. O meu prédio é exemplo disso: quando chegámos, há 16 anos, não havia crianças a viver aqui. Hoje há, pelo menos, cinco. E netos que visitam a avó. Os lugares ganharam outra vida, tal como os passeios se encheram de alegria conjunta no alarido das bicicletas e das trotinetas. Eu sigo a pé. Percorro o bairro com prazer, cumprimentando o dono da drogaria, os senhores dos frangos, até o segurança do centro comercial. Sou uma deles. Eles são os meus vizinhos, até mesmo morando do outro lado do rio. Passam mais horas a trabalhar por aqui do que com as suas famílias.
Mas no bairro mais apetecível também fica escancarado o que não somos capazes de fazer pelos outros. Pensar o espaço não como apenas nosso, mas como uma área que sobrevive graças à vontade de todos. Não vou dizer nada que não vejam nos vossos lugares: cães de raça, quase sempre comprados, que vêm à rua com os seus donos e deixam rasto, rasto esse que será um sobressalto, um imprevisto no caminho dos outros. Como é possível irmos à rua com o nosso animal de estimação e não demonstrarmos qualquer estima por quem pisa o passeio todos os dias? Como é possível encolhermos os ombros ou assobiarmos para o lado, sabendo que acabámos de cometer uma infração na via pública? O que revela isto das pessoas que o fazem? Demasiado. Que são incapazes de se porem nos sapatos dos outros. É difícil andar neste bairro bonito sem tirar os olhos do chão.
A forma como se faz a reciclagem também diz muito de quem por aqui mora: os caixotes regurgitam o excesso. Embalagens inteiras são atiradas aleatoriamente para os caixotes. “Alguém que faça esse trabalho”. Não é só em épocas festivas que o excesso se acumula. É diariamente, porque nós já vivemos em sobredosagem. A apatia do excesso é que não nos deixa festejar. Os dias parecem todos iguais, porque o consumo não é ocasional.
O meu bairro favorito tem a beleza das árvores e o barulho dos pássaros que vêm debicar as migalhas e a terra. Quem estraga este lugar são os humanos, que se estão a borrifar para a presença dos outros. Mais do que a ganância, que também é marca nossa, o egoísmo impera em cada esquina. As pessoas acham que fazendo “à sua maneira” podem seguir com a sua vida. Não há nada de mais errado nisto. O meu bairro é o mundo: o caixote do lixo a transbordar, o passeio sujo ou a trotinete abandonada no meio da estrada representam o mesmo encolher de ombros que fazemos perante o outro. Esteja ele em Rafah, no Minnesota ou na Cova da Moura.
Iremos a tempo de descobrir que habitamos todos o mesmo lugar?
O coração ainda bate.
