menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

O Coração Ainda Bate. As vantagens de ser invisível

20 0
23.03.2026

No respigar diário de informação avulsa e aleatória que o mundo digital nos dá, fui ao encontro de um vídeo onde se falava da invisibilidade das mulheres de 50 anos. Não estranhei, mas quase me indignei, mesmo sabendo que na maioria dos casos é verdade. Posso pensar facilmente nos motivos que levam a que nos ‘evaporemos’, sendo eu uma mulher de 54 anos: menopausa, corpo em mudança, rugas, cabelo grisalho, gente nova que chega com alarido. São coisas do senso comum, sim.

Assisto a algum desse alarido, até o físico, com tranquilidade; a verdade é que nunca me senti tão visível, como se tivesse feito todo um caminho, ainda que inconscientemente, para aqui chegar. Trabalho, estou activa, gosto de me rodear de pessoas que julgo serem íntegras, aprendi a fazer gestão do importante e do ruído. Por que raio havia eu de me sentir invisível?

Aquilo de que ninguém parece falar é das escolhas conscientes das mulheres de 50 anos, que sorriem quando antes gargalhavam. A gargalhada não desapareceu, mas até a gestão de uma boa piada é feita de outra forma. As mulheres de 50 anos também fazem escolhas. Esqueçam a sentença do fim da idade reprodutiva. Essa é uma etapa como outra qualquer. O que sei aos 50 deixa-me tão apaziguada, até mesmo sabendo agora melhor aquilo do que a humanidade é capaz. Escolhas. Fazemos escolhas. Não somos invisíveis. Não nos penduramos por uma viagem curta, quando sabemos que o caminho ainda vai ser longo. 

Nesse tal respigar inconsequente do mundo digital, onde ainda caio, deparo-me muitas vezes com gente de todas as idades que perde horas com truques para estar em forma ou camuflada em maquilhagem,  que lhe apaga as naturais feições. Um cansaço, penso eu, uma auto cuidadora negligente. Em nome de quem andamos a tentar parecer o que não somos? É mesmo só por nós ou é por temermos ser afastadas do campeonato do desejo? 

É grave alguém gostar de nós porque parecemos ter 5 ou 10 anos a menos. E é grave deixarmos que este aparente elogio alicerce a relação. 

O amor não vive do que parece. O amor vive do que é; e, às vezes, são rugas ou um corpo em mudança. 

Parem de dizer às mulheres que elas não parecem ter a idade do BI.

Isto não é um elogio. É condescendência. É praticamente misoginia. Eu não ouço os homens dizerem entre eles que parecem mais novos, que não se nota a idade. De uma vez por todas, porque é que não podemos aceitar a idade que temos, vivendo com qualidade, em vez de andarmos a camuflar marcas do tempo? Que cansaço tudo isto.

Eu não sou invisível aos 54 anos. Tenho corpo, voz, aprendi muitas coisas que posso partilhar com quem as quiser ouvir. Se já fui mais observada na rua ou elogiada pela minha aparência? É provável, mas o que se faz com um punhado de elogios ou de likes? Não será mais importante sermos validados por quem nos ama e nos lembra: 'Gosto de ti como és'?! Talvez esta seja a frase que importa repetir ao espelho, em vez de ficarmos uma hora a tornar invisíveis as marcas do tempo. O tempo não pára e costuma ser benevolente com quem não o nega.

O coração ainda bate.


© PÚBLICO