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O triângulo amoroso que agarra o público e agrada quem lucra com as audiências

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26.03.2026

Acredito que nem todos saberão quem é a Eva, mas sei que todos conhecem uma. Passo a explicar: nos últimos dias, o país inteiro colou-se à televisão para assistir ao escândalo que se passa na Casa dos Segredos. Se não sabes de que se trata, resumo-te em duas linhas. Um rapaz, que entra com a sua namorada, Eva, envolve-se com outra concorrente dentro da casa para, supostamente, proteger o seu segredo.

Um enredo tão velho quanto o tempo: o triângulo amoroso que agarra o público e agrada quem lucra com as audiências. Mas não é porque uma história passa nas nossas televisões que deixa de ser uma história real, com pessoas reais. Nem me importa particularmente quem está certo ou errado, interessa-me trazer as reflexões necessárias à situação que mobilizou o país a falar sobre relações.

Comecemos pelo início. Antes de entrar na casa mais vigiada do país, o casal combinou que podia, com o consentimento de ambos, despistar as atenções do seu segredo, aproximando-se de outras pessoas. Contudo, e como em tudo na vida, aquilo que falamos e aquilo que sentimos são coisas bastantes diferentes, certo?

Isto leva-nos a uma conversa importante: o que constitui, afinal, uma traição?

Quando falamos de traição, tendemos a fechar-nos em caixas rígidas e socialmente predefinidas do que é ou não aceitável acontecer numa relação. Mas a verdade é que a traição pode significar coisas diferentes para diferentes pessoas e, consequentemente, para diferentes casais. No fundo, é tudo aquilo que desrespeite os limites previamente definidos na relação. Há traições que não envolvem contacto físico e há contacto físico que não constitui uma traição, como nas relações não monogâmicas, por exemplo. Mas enquanto público, observamos um desconforto crescente, por parte de Eva, ao envolvimento do namorado com outra concorrente. Por isso, talvez não seja este o caso.

Para além disso, o consentimento é algo que pode (e deve!) ser retirado a qualquer momento. Não é algo que damos de forma permanente ou vitalícia, é algo que vamos experimentando para ver se nos serve e sobre o qual fazemos ajustes sempre que necessário. E é por isso que o impacto desta situação não se mede apenas pelo comportamento em si, mas pelo significado que esse comportamento tem para quem o vive na pele. Não estamos só a falar de acções, que podem ou não ter sido consentidas. Estamos a falar da quebra de confiança, que não é apenas acreditar no outro, é sentir que existe espaço para mudar de ideias, fazer cedências e ser colocada em primeiro lugar.

O que nos leva a uma das camadas mais importantes desta história e, atrevo-me a dizer, uma das razões pelas quais tantos portugueses se encontram tão envolvidos no programa. O facto de que, de uma forma ou de outra, todos conhecemos uma Eva. Tantas vezes confundida com amor, a dependência emocional leva-nos a ficar em lugares pouco saudáveis para nós, por acreditarmos que, sem essa pessoa, não sabemos mais viver. Sentimos a relação como o principal, se não o único, lugar onde encontramos validação, amor e segurança e, para não perder isso, sujeitamo-nos a deixar de ser quem somos para passar a ser aquilo que achamos que a relação precisa de nós. Ajustamo-nos, cedemos e silenciamos partes de nós, por acreditar que perder a outra pessoa é mais doloroso do que nos perdermos a nós próprios. No fundo, há uma fusão tão grande entre a relação e a nossa identidade, que deixamos de perguntar “o que é que eu aceito?” e passamos a viver em função de “o que é que eu preciso de fazer para isto não acabar?”. Neste ponto, sair da relação deixa de ser apenas uma decisão difícil e passa a ser vivido como uma ameaça à própria identidade.

Mas todas as Evas precisam de alguém de quem depender. Alguém que alimenta a dependência, directa ou indirectamente, e as faz acreditar que não se segurarão sozinhas. O que quero dizer é que, geralmente, dentro destas dinâmicas, há outros fenómenos mais subtis a acontecer, extremamente difíceis de identificar quando estamos dentro deles. Um dos mais conhecidos é o gaslighting. Definimos gaslighting como uma forma de manipulação emocional que consiste em fazer a outra pessoa duvidar da sua própria percepção da realidade. Nem sempre é uma óbvia manipulação da verdade, muitas vezes surge em frases como “estás a exagerar” ou “não foi nada disso que aconteceu. Aos poucos, a dúvida instala-se. E quanto mais deixamos de confiar na nossa própria percepção da realidade, mais dependentes ficamos da realidade do outro.

Muito se fala, também, sobre o comportamento não-verbal que observamos. A apatia, a indiferença e a frieza com que nos parece que se encara a situação soa-nos estranha, irreal. Mas em momentos de grande sofrimento e pela dificuldade em integrar aquilo que está a acontecer, a nossa mente entra em negação ou inibição emocional, mecanismos que servem para nos proteger, ainda que sejam pouco úteis a longo prazo.

Por fim, é importante lembrar que não se trata de distribuir culpas de forma simplista, mas de reconhecer que as escolhas que fazemos não acontecem no vazio. Elas entram em sistemas já existentes e, muitas vezes, reflectem dinâmicas recorrentes e complexas, onde o comportamento observável é apenas a ponta visível de um grande iceberg.

A pergunta mais importante não é quem tem razão, se a terceira pessoa já sabia ou como pode alguém consentir tudo isto. A pergunta certa é: estaremos mais à vontade para julgar os outros do que para identificar uma dinâmica tóxica à frente dos nossos olhos?


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