O custo do insucesso nas candidaturas científicas
Terminou a 25 de março a fase de candidaturas da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) para projetos em todos os domínios científicos. No caso dos projetos de “Investigação Científica e Desenvolvimento Tecnológico”, o último concurso tinha fechado há dois anos, o que se afasta da promessa de haver um concurso anual. O cenário parece ter sido semelhante aos últimos anos com a comunidade científica nacional a concorrer em peso.
Pormenores à parte, a FCT espera financiar cerca de 320 projetos. Se considerarmos o número de candidaturas do último concurso, que poderá ser ultrapassado, a taxa de sucesso deverá rondar os 12,5%. Isto significa que quase 87,5% dos projetos que foram submetidos serão recusados e grande parte do tempo investido pela comunidade científica terá sido, de certa forma, desperdiçado. Não é novidade nenhuma, nem em Portugal nem na Europa e nos EUA, que as taxas de sucesso têm decrescido nos últimos anos, fruto de uma maior competição e número de candidaturas, não acompanhado na mesma proporção pelo aumento de financiamento para a ciência.
A título de exemplo, no último concurso a dois tipos de financiamento europeus (para bolsas de pós-doutoramento Marie Curie e projetos Pathfinder do European Innovation Council), registou-se, respetivamente, um crescimento do número de candidaturas de 60% e 87%, resultando em taxas de sucesso de 9,6% e 2,2%. Também o número de candidaturas às Advanced Grants do European Research Council registou um aumento de 31% em relação ao ano anterior e de 82% em relação a dois anos antes. Uma das explicações para estes aumentos acentuados é o crescimento do número de candidaturas de investigadores de fora da Europa, que aumentou quase quatro vezes no caso das Advanced Grants.
Também fica claro que as dotações orçamentais dos concursos não têm acompanhado este crescimento. Infelizmente, com a pressão para aumentar os gastos em defesa, além de outras áreas prioritárias, e a situação económica difícil que se antevê no futuro próximo, não há grandes perspetivas de uma alteração deste cenário.
Como continuamos apenas a quantificar as taxas de sucesso, os custos do insucesso tendem a ficar escondidos e esquecidos, mas existem e estão a aumentar. A preparação das candidaturas é complexa e morosa e envolve não só investigadores, mas também apoio especializado por parte de gabinetes de financiamento e de gestão de ciência, além do processo de avaliação que também envolve investigadores com apoio administrativo.
Toda esta estrutura tem custos que aumentam com o crescimento do número de candidaturas. E estamos a chegar a um ponto em que os custos associados à fase de candidatura superam o financiamento das mesmas.
De facto, um estudo publicado recentemente na revista Nature contabilizou que os gastos com as candidaturas ao concurso “GenAI for Africa” do programa Horizonte Europa superou o financiamento atribuído, tendo sido os primeiros superiores a 5,3 milhões de euros e o montante total atribuído de cinco milhões de euros. Este estudo conclui que estamos a ultrapassar o “ponto de Szilard”, inspirado no físico húngaro Leó Szilárd e que mede o custo-benefício envolvido nos concursos de financiamento. Ou seja, o processo está a dar um prejuízo líquido aos financiadores, neste caso a Comissão Europeia, o que é o mesmo que dizer aos contribuintes europeus.
Como não se antevê nenhuma melhoria da situação, antes pelo contrário, têm de se tomar medidas urgentes. Uma das tendências que se têm verificado é para abrir concursos mais focados numa determinada área e assim diminuir o número de candidaturas e custos associados. Claro que isto também exige que se definam prioridades, o que é difícil.
Outra medida é a de diminuir a complexidade das candidaturas e do processo, organizando-o em duas fases, em que a primeira envolve uma candidatura mais simples e a segunda, mais detalhada, com taxas de sucesso superiores.
Também tem sido experimentado o método de sorteio, em que as candidaturas consideradas muito boas ou excelentes são depois sorteadas. Isto porque o viés envolvido para escolher entre candidaturas de topo é muito grande e este sistema implica uma diminuição dos custos de avaliação.
É de realçar que estas propostas podem ser combinadas entre si. O que não pode acontecer é não fazermos nada para alterar uma situação anacrónica, que nem faz sentido do ponto de vista financeiro, e que é mais uma ameaça ao sistema científico.
O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico
