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Ser feliz dá trabalho

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21.02.2026

Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.

Estive recentemente no Brasil, onde fiz uma das coisas que mais me dá prazer na vida: fui para Arembepe, uma vila na beira do mar da Bahia. Adoro andar na praia. Poucas coisas se equivalem a sentir o sol bater na pele, ouvir o barulho do mar, pisar na areia morninha... é felicidade em estado bruto para mim. Nesse cenário delicioso, conversando sobre coisas da vida com um amigo querido, o talentoso cantor Chico Mieli (@chicomieli no Instagram, não percam!), ele me brinda com um pensamento incomum: “Ser feliz dá trabalho!”

Essa constatação me caiu como uma bomba. Desde então, não consegui parar de pensar que meu amigo, apesar de tão jovem, tem toda a razão. Quanto tempo não perdemos correndo atrás de dinheiro, de amor, de amizades, de saúde? Para quê? Supostamente, fazemos tudo isso para sermos felizes.

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Pelo menos, esse deveria estar entre os objetivos principais de nossa luta diária. Muitas vezes, porém, passamos tempo demais batendo cabeça de lá para cá, nos sentindo miseráveis, cansadas, irritadas e esquecemos que ser feliz e deixar os outros felizes é o que realmente importa.

Claro que todos temos problemas na vida, alguns mais, outros menos. Claro que muita gente batalha para ter o básico e, com tantas dificuldades, ser feliz deixa de estar na lista do que é prioritário. Outras pessoas sofrem de distúrbios psicológicos e físicos que tornam a busca pela felicidade mais complicada. Não vou dizer que é pura e simplesmente uma questão de querer e pronto.

Descontadas essas questões complexas, ser feliz é um trabalho em que temos que prestar atenção durante toda a vida. Costumamos pensar que o contentamento deveria ser um estado natural, que não precisaríamos de aprendizado, que apenas acontece. Talvez seja assim para aquelas pessoas que nascem e morrem de bem com a vida. Mas não é dessa maneira que funciona para todo mundo.

Em vários dos artigos que publica no The New York Times, a psicóloga Jenny Taitz diz que é possível exercitar o cérebro para ir atrás de emoções positivas e, dessa maneira, gostar mais da vida e ser mais feliz. Ela afirma que buscar pequenas alegrias e apreciar experiências variadas são habilidades que podemos desenvolver.

“Praticamente todas as pessoas conseguem aumentar sua sensibilidade à recompensa, treinando-se para perceber e saborear emoções positivas. Isso vale até mesmo para pessoas com depressão e ansiedade, que têm dificuldade em sentir prazer, uma condição chamada anedonia”, explica Jenny Taitz.

Segundo ela, tão importante quanto tentar diminuir pensamentos negativos ou que causam ansiedade é aumentar as emoções positivas. E isso não é conversa de livro de autoajuda. Pesquisas mostram que focar em experiências e atividades prazerosas funciona como um impulsionador de felicidade.

Sabemos que a vida em geral é corrida, que o dinheiro está curto, que passamos muito tempo embotando os sentidos com a cara no celular. O que a psicóloga recomenda como treinamento para a felicidade é guardar constantemente um espacinho para aquilo que nos deixa contente. Não precisa ser uma viagem para o Caribe. Pode ser qualquer coisa simples, uma comida, a sensação do sol no rosto, o barulho do mar, um passarinho cantando. Depois, procure relembrar esse momento em detalhes e reviver os sentimentos que ele causou.

Outros exercícios propostos pela psicóloga incluem desde aumentar nossa lista de palavras que definem sensações agradáveis, como delicioso e maravilhoso, a tentar encontrar o lado bom das coisas. Jogar o “jogo do contente”, da famosa personagem Poliana pode, afinal, não ser uma bobagem como muita gente pensa. Por fim, imagine que o futuro sempre trará os melhores resultados.

Os pesquisadores dizem que essas práticas fáceis aumentam nossa sensibilidade para momentos felizes e faz com que a procura por esses traços de alegria seja mais frequente. Isso ajuda a impedir pensamentos negativos e aqueles que causam ansiedade.

Lembro com saudades da minha avó, que lutou muito e sofreu perdas dolorosíssimas ao longo da vida, mas que nunca se furtou de admirar com gosto uma árvore cheia de frutos ou um campo florido. Em vez de estar sempre buscando e se preparando para a desgraça, eternamente reclamando de tudo e só pensando no peso do cansaço, que tal tentar trabalhar no sentido oposto, o da felicidade?


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