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A paz como imperativo estratégico no mundo atual

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04.03.2026

Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.

Vivemos tempos de elevada tensão internacional, onde a imprevisibilidade substituiu a estabilidade e a retórica se sobrepõe, demasiadas vezes, à prudência estratégica. O mundo não está condenado ao conflito, mas está vulnerável ao erro de cálculo — e é precisamente isso que deve preocupar-nos.

A história demonstra que a eliminação direta de líderes políticos ou espirituais adversários raramente produz moderação. Pelo contrário, tende a gerar radicalização, transformar figuras em símbolos e abrir espaço a sucessões mais rígidas. Em regimes ideologicamente estruturados, mudanças abruptas de liderança não significam necessariamente abertura; muitas vezes, significam endurecimento.

No universo xiita, que representa cerca de 10% a 15% dos muçulmanos do mundo, falamos de centenas de milhões de pessoas. No Irã vivem cerca de 90 milhões, existindo ainda comunidades relevantes no Iraque, no Líbano, no Bahrein, no Azerbaijão e em diásporas globais. É uma realidade plural e complexa, que exige leitura estratégica e não simplificações emocionais.

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O Irã é também um ator energético central. Está entre os principais produtores de petróleo e influencia diretamente o Estreito de Ormuz, corredor por onde passa uma parte significativa do comércio mundial de energia. Qualquer escalada militar naquela região tem impacto imediato nos preços do petróleo, na inflação, nos mercados financeiros e na confiança empresarial. Num contexto econômico já fragilizado, o fechamento de Ormuz pelos iranianos abre mais um foco de instabilidade é um risco sistêmico.

Falo igualmente na minha qualidade de presidente da Câmara Portuguesa de Comércio e Indústria do Rio de Janeiro, que representa empresários que investem, produzem e criam emprego entre Portugal e o Brasil. Para quem vive a realidade empresarial, a paz não é um ideal abstrato — é condição de investimento, de previsibilidade cambial, de estabilidade logística e de confiança.

Cada crise geopolítica traduz-se em volatilidade, aumento de custos energéticos e adiamento de decisões estratégicas. Quem paga não são apenas os Estados; são as empresas, os trabalhadores e as famílias.

Não se trata de defender fraqueza perante regimes hostis, mas de compreender que firmeza estratégica não é sinónimo de escalada permanente. A diplomacia é sempre menos onerosa do que o conflito aberto. A contenção é, muitas vezes, a forma mais elevada de força.

Num mundo interdependente, a paz é um ativo estratégico. Ninguém vence verdadeiramente uma guerra energética ou geopolítica. Todos pagam — e pagam caro. A liderança do nosso tempo será julgada não pela capacidade de escalar tensões, mas pela sabedoria de as evitar.


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