Normalidade e outras fábulas
E apesar de sermos adultos, continuamos a acreditar em fábulas mirabolantes e histórias de ficção, algumas verdadeiramente infantis, e embarcamos iludidos em altos devaneios da imaginação, para tantas vezes nos estatelarmos sem pára-quedas na realidade, com o risco de umas quantas esfoladelas e escoriações. Ou pelo menos, com o desconforto de uma aterragem forçada que faz no mínimo, o rabo saltar na cadeira (como aquelas que se experimentam quando se compra um bilhete para um voo low cost, e temos a sensação de que o piloto está a fazer estágio-profissional pelo IEFP no momento de aproximação à pista.) Mas as fábulas têm a sua função — eu sempre que sinto um apertão no estômago durante uma descida atabalhoada, apaziguo-me sempre com a ilusão de que, tal como o Tom Cruise no “Top Gun”, também eu terei a hipótese de saltar de pára-quedas antes do avião se descontrolar e cair no mar.
Há uns tempos, por ocasião de um lanche perfeitamente casual, lembrei-me desta atribulada oscilação entre realidade e ficção, quando entrei na casa de amigos e em resposta à pergunta: “Onde deixo o casaco?”, eles responderam “Pousa aí no escritório”. Nada de surpreendente até aqui. A parte surpreendente, foi quando abri a porta do dito escritório da moradia de subúrbio completamente convencional e arrumada, do casal de amigos impecavelmente aprumados e organizados, me deparei com aquele que podia ser um cenário de passagem de tornado, ou um quadro pós-apocalíptico de destruição, e fui abalroada por um tsunami de objetos aleatórios como: livros, sacos de compras, meias, caixotes, cadernos escolares, sapatos, e ainda uma coleção particularmente específica de figuras de ação infantis (que apesar da extravagância, teriam certamente um valor emocional intraduzível), e que se amontoavam numa pirâmide sobre uma mobília de escritório soterrada, onde eu procurava equilibrar, agora, o meu casaco, com risco ficar para sempre sepultado na desarrumação!
Sem fazer um juízo moral — eu própria tenho um armário ao qual dedico a acumulação arqueológica de objetos perdidos e inúteis! — o caos explosivo surpreendeu-me sobretudo pela conduta e o aspeto, polido, arrumadíssimo e extremamente certinho, normal dos meus amigos, ambos formados em Ciências Exatas, que se organizam na configuração tradicional da família nuclear: dois filhos, dois cães, uma Bimby.
Fascinante pensei. Eles afinal são normais. Não há normalidade nenhuma que seja normal. Já que acredito que a normalidade é uma falácia, uma dessas histórias inventadas.
Nesse mesmo lanche estava um outro amigo, que atravessava a circunstância, um bocadinho mais irregular, mas nem por isso incomum, de ter visto o seu casamento de 16 anos terminar abruptamente, três semanas antes, no voo de regresso de umas férias com a mulher e os filhos da República Dominicana. A decisão dela — contara-me previamente ao telefone — já estaria certamente a formar-se antes, mas como um piloto que confia nos instrumentos automáticos de navegação, ele não se tinha dado conta, e para ele o casamento seguia a velocidade cruzeiro, enquanto calculava que juntos haveriam de celebrar a reforma voando para outros destinos tropicais. Ironicamente, tinha sido a 35.000 pés de altitude que a esposa lhe tinha comunicado a decisão do divórcio. Haja trem de aterragem para aguentar o impacto…
No entanto, apesar do embate aparentemente catastrófico da notícia, quando nos detivemos no corredor da casa, durante o lanche, para trocar umas palavras, ele exibia um daqueles sorrisos paralisados que uma candidata a Miss Universo mostra quando lhe perguntam: “Qual a capital do Quirguistão?” E ela estava preparada para responder “Conseguir a paz mundial e erradicar a fome”.
Tentei avançar com cautela: “Como estás?”
“Estou ótimo!”, respondeu-me.
“A sério? ”, confirmei alarmada.
“A sério! Estou mesmo bem. Estou sxcelente. Excelentíssimo!”
Alerta no cockpit. Estava a usar um adjetivo superlativo absoluto sintético! “Está péssimo…”, pensei. O adjetivo superlativo absoluto de mau.
“Conheci uma pessoa no Tinder”, anunciou antes da aceleração para descolar. Tinha fechado as contas com a tristeza. Explicava-me — sempre de sorriso no rosto impecavelmente barbeado a flutuar sobre a camisa engomada — que tinha decidido que não queria perder tempo na perturbação em que se encontrava. Assoberbado com a angústia em que se tinha visto capturado, uma espécie de vazio que desconhecia em si (e que lhe parecia um amontoado de emoções e memórias infantis estranhamente desarrumadas e francamente assustadoras) tinha decidido que era hora de avançar (fosse lá o que isso fosse) e concluía que não iria perder nem mais um minuto, queria pôr-se em ação. Só queria retomar a “normalidade”.
“Agora é andar para a frente!”, afirmou com a retidão do piloto Maverick, enquanto se lançou para diante, no corredor, e embateu na perna do aparador, tropeçando (a ironia dos objetos inanimado é um a coisa magnifica) e seguiu em direção às nuvens. Ou no caso, em direção à sala onde se preparava para cantar “I can see clearly now the rain is gone…” numa versão de karaoke digna de omissão.
Pensei em todas as teias que uma vida em comum implica, e na turbulência aterradora que provoca o tipo de acontecimento que tinha acabado de lhe fraturar a cronologia, há apenas algumas semanas.
Calculei o tamanho do pára-quedas imaginário que era preciso conceber para conseguir saltar antes de mergulhar em águas agitadas, ou para se evitar dar de caras com o entulho de acontecimentos com um valor intraduzível, que de repente parecem simples objetos perdidos e inúteis, e que correm o risco de ficar sepultados sem que lhes seja dado o devido valor.
Lembrei-me das palavras da Maria Homem (num artigo que escreveu sobre luto) em que dizia que “talvez o luto mais difícil de atravessar seja quando o que se perdeu está no futuro: uma miragem, um sonho”.
Calculei o poder encantatório das fábulas. Da força das ilusões que criamos. Das histórias que acabam sempre “bem”. No equívoco da normalidade.
A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990
